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Quem Somos

Antônio Eustáquio Marciano 

Antônio Eustáquio Marciano é Bacharel em Ciências Contábeis, com especialização em Controladoria e Auditoria, Bacharel em Teologia, com especialização em Ciência da Religião e em Bíblia.

Trabalhou no Banco do Brasil até se aposentar.

Atualmente é perito financeiro e contábil.

Diácono Permanente da Igreja Católica Romana, na Diocese de Uberlândia (MG), dedica-se ao trabalho pastoral.

Autor de três livros publicados pela Assis Editora: Talita e Talia: por que os homens matam o amor, Bico de Pena e Tessalônica: princípio de amor.  

Felicidade é ter amigos.

Igreja e Socialismo

Em 15 de maio de 1891, o papa Leão XIII publica a Carta Encíclica Rerum Novarum, o documento mais importante da Igreja Católica, que fala das condições dos operários e sobre a justiça social no mundo novo de então. Este documento, o mais reevocado e atualizado por outros escritos oficiais, entre outros pontos fundamentais, reconhece o direito dos operários de defenderem, em conjunto, seus direitos, formando associações profissionais. Contudo, o documento, clara e enfaticamente, rejeita o socialismo ou social democracia, condena a luta de classes e defende os direitos à propriedade privada. Discute as relações entre o governo, os negócios, o trabalho e a Igreja. São questões de ética e direitos humanos, tratados naqueles tempos de grandes mudanças. Mudanças estas que aconteciam, principalmente, ante as ideias que se desenvolveram após as publicações dos escritos de Karl Marx e Friedrich Engels, no período da Ordem da Revolução Industrial, preocupados em analisar o modo de produção capitalista.

 

A Igreja, em muitas partes do mundo, passa a ser grande motivadora e orientadora na formação de associações de operários, visando ao fortalecimento desta classe, para reivindicar boas condições de trabalho, em diálogo constante com os donos do capital, tudo sob a luz do Evangelho e da Doutrina Social Cristã (DSC).

 

No Brasil, este trabalho foi feito por diversas instituições e entidades, entre elas as Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e os Círculos Operários. A maioria delas foi conduzida por pessoas que acreditavam na possibilidade de haver uma sociedade onde prevalecesse a justiça e a paz social.

 

Trataremos aqui, rapidamente, dos Círculos Operários, que são instituições sociais leigas, de utilidade pública, sem fins lucrativos, voltados à promoção do ser humano e de suas comunidades, buscando a Justiça Social Cristã. Até alguns anos, tinham em sua diretoria, um membro responsável pela aplicação da DSC, com aprovação do bispo diocesano. Isto foi abolido em alguns Círculos, Brasil afora. Os Círculos advogavam as causas comunitárias a extremo de suas possiblidades e recursos. O primeiro Círculo foi fundado em 1932, em Pelotas (RS), pelo padre jesuíta Leopoldo Brentano, com a finalidade de apoiar os trabalhadores, ainda longe dos benefícios necessários a uma vida digna. Surgem do envolvimento entre a Igreja Católica e o Estado, no Brasil, entre 1930 e 1964 e resultam do papel desta relação no mundo do trabalho e no processo de desenvolvimento urbano industrial. São os Círculos Operários uma das vertentes do catolicismo social que, obedecendo a encíclicas e documentos da Igreja, fixa as bases para que esta instituição sustentasse seu ideário de harmonia social, progresso e ordem, essenciais para sua atuação no projeto de normatização do trabalho no Brasil. A organização circulista foi o projeto politico-teológico e instrumento da Igreja Católica para sua inserção no mundo do trabalho. Na historiografia e matizes da experiência circulista, em diferentes espaços, forjou-se um projeto pedagógico compreendido na dimensão de um trabalho voltado para a instrução e doutrinação dos trabalhadores em seus espaços diversos. O período revolucionário brasileiro foi época de incertezas para a instituição, o que acabou por torná-la inerte, em muitas partes do Brasil, até a concretização da redemocratização.

 

Hoje, muitos católicos de verdade estão aflitos por causa de opiniões, em materiais diversos, que circulam em redes sociais, com grandes questionamentos e até agressões à Igreja, com acusações de que ela apoia as ideias e práticas socialistas no Brasil. Isto é perfeitamente compreensível, pois que, a Igreja sempre teve a sua ala com tendência socialista, principalmente após o advento da teologia da libertação. Como dito acima, já nos fins do século XIX, ela se envolveu muito na ajuda aos trabalhadores a se organizarem, notadamente após a Revolução Industrial, reconhecendo o direito destes de se organizarem em sindicatos.

 

Entretanto, pelo que pude observar, apesar de existirem alguns comunistas na Igreja, isto não pode significar que ela esteja toda tomada por esta ideologia. O maior problema, na minha opinião, é a ignorância de muitos de nós católicos e até de uma parte do clero, por não conhecermos totalmente as fartas orientações oficiais de Roma, pois é uma instituição católica, apostólica, com sede na capital italiana, além disto é um estado, o Vaticano. Como em qualquer instituição que trabalha para o bem comum, também na Igreja existe infiltração de adversários e inimigos. Acredito que a Igreja Católica no Brasil é ainda muito forte, tem muita credibilidade e, o mais importante, tem a assistência do Espírito Santo.

 

O Brasil, penso, está mais carente de boas escolas do que de qualquer igreja. Precisamos orar, laborar e estudar, não necessariamente nesta ordem. Qualquer crise pode ser resolvida com diálogo. Toda verdade pode ser encarada com espirito fraterno e fidelidade evangélica. Os Círculos Operários são exemplos de instituições importantes que, passado o tempo de um tipo de ação útil, buscaram outras formas de servirem à sociedade. Se as crises têm um lado bom, pode se dizer que é a hora em que as pessoas se revelam.

A Inclusão dos Gentios Na Sagrada Aliança, Segundo São Mateus

O cristianismo nasceu, segundo a Bíblia, dentro do judaísmo, na Palestina, província do Médio Oriente, ocupada pelo Império Romano, a partir do nascimento, ministério, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, chamado “O Cristo”.  Os discípulos de Jesus, após a morte deste, continuaram a pregar sua mensagem por todo o mundo judaico. Coube ao apóstolo Paulo de Tarso, a divulgação da mensagem de Cristo pelo mundo de cultura helênica, aos povos judeus e gentios. Nos dois primeiros séculos, a mensagem cristã foi rejeitada pelas autoridades romanas e parte das autoridades judaicas. Os cristãos foram perseguidos. Entretanto, em 313 d. C. o Império Romano, já sediado no oriente, através do Imperador Constantino, declara-se neutro em relação a práticas religiosas, acabando com qualquer perseguição aos cristãos. Posteriormente, o imperador Teodósio, em 380 d. C. torna o cristianismo religião oficial do Império. Os cristãos passaram, em três séculos, de povo perseguido a povo amigo do poder. A partir daí, o cristianismo, nascido no judaísmo, absorve mais clara e concretamente, elementos da cultura helênica, e se espalha pelo mundo. Tornou-se uma religião seguida, nos dias de hoje, por cerca de dois bilhões de pessoas, segundo o site Missão Jovem, em todo o planeta e tem, como base fundamental, a fraternidade, a partir do amor doação, onde cada indivíduo deve colocar o seu próximo em pé de igualdade consigo mesmo, tudo, a partir da fé em Cristo Jesus. 


O cristianismo parte do pressuposto de que a salvação, termo teológico correspondente à felicidade, só é conseguida quando o individuo ama a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todo o seu espírito e ama ao seu próximo como a si mesmo, conforme o livro do Evangelho de São Mateus, capítulo 22, dos versículos 36 a 39. 

A Escritura Sagrada do cristianismo é a Bíblia, que é dividida em duas partes: o Antigo ou Primeiro Testamento e o Novo ou Segundo Testamento. Este último é ainda chamado de Testamento Tardio. O Novo Testamento consta, em ordem de distribuição na Bíblia, de três livros dos evangelhos sinótico, escritos, respectivamente, por Mateus, Marcos e Lucas, um evangelho de João, que se distingue dos demais, segundo a Bíblia de Jerusalém, 2011, p. 1835, entre outros motivos, por uma “... cristologia muito mais evoluída, que insiste, particularmente, sobre a divindade de Cristo”. Depois vem o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, seguido de treze cartas e epístolas escritas pelo apóstolo Paulo às comunidades fundadas e acompanhadas, mesmo de longe, por ele. Depois vem a carta aos hebreus, de autor desconhecido, seguida de uma epístola de Tiago, duas epístolas de Pedro, três epístolas de João, uma epístola de Judas e, por último, o livro do Apocalipse ou Revelação, atribuído ao apóstolo João. O Novo Testamento tem, portanto, um total de 27 livros.


As escrituras cristãs procuram falar ao coração humano que Deus, por amor à sua criação, mandou seu único Filho, Jesus Cristo, que se encarnou, vivendo a condição humana, no meio de nós, para nos ensinar a viver felizes, em paz, resistindo ao pecado que é sinônimo de morte. A mensagem cristã quer mostrar que Deus está presente no outro, seja ele quem for. A comunhão com Deus não é privilegio de judeu ou grego, mas de todos que aceitam a Jesus Cristo. 

Livros Publicados

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Bico de Pena

Tessalônica

Talita e Talia

O pano de fundo, e aí a beleza em essência da obra, longe a autobiografia, é a vida do autor que se desvela na narrativa poética, plasmada nas convicções exteriorizadas, nas reminiscências, nos “causos” e anedotas poéticos.
Correndo os olhos pelos cadenciados versos, à semelhança de uma contação de história rimada, é possível, ao leitor, auscultar a alma pura, plena de humanismo e de religiosidade do autor que, a todo instante, abaliza os valores morais, éticos e de cidadania, se não degenerados, tão carentes na sociedade hodierna, a alicerçarem um mundo onde prevaleça o respeito ao próximo, a solidariedade, a alegria de viver em paz e harmonia, quer na família, quer nas demais instituições sociais das quais as pessoas participem. A axiologia em que o autor desenvolve seu viver exsurge transparente em seus escritos, notadamente estigmatizados pela linguagem simples, direta, donde flui indescritível beleza. A base de tudo é o amor, que se manifesta na relação com o divino, entre familiares e amigos, até mesmo na interação com o estranho, o desconhecido.
Ademar Inácio 
Escritor

R$ 25,00 (Frete não Incluso)

Na virtualidade da Era tecnológica, é cada vez mais raro deparar-se com homens dispostos a apregoar humanismo. Antônio Marciano, por conseguinte, mostra-se uma raridade. Nesta obra poética, Bico de pena, ele costura as palavras com uma linha reflexiva de cinco fios, a saber: criatividade, humor, valor humano, fé e reivindicação, cujo resultado não poderia ser outro: POESIA, sob o crivo da visão intimista da realidade, pelo poeta. Se deve ser assim, quem vai saber? O que o poeta faz é semear a palavra; aquele que a colher é quem fará a leitura que mais lhe encantar."
Rosana Spacek
Poetisa

R$ 25,00 (Frete não Incluso)

No primeiro século da era cristã, Alcer, um jovem macedônio, nascido e criado na cultura helênica, conhecedor do pensamento dos filósofos gregos, mas admirador do hebreu Saulo de Tarso, toma conhecimento de que seu "ídolo", aderira à doutrina de um tal Cristo, muito estranha à sua cultura. Com a mente e o coração aflitos, vai a Tessalônica, onde aparecera um escrito de Saulo, o primeiro texto de toda a literatura cristã: a primeira carta aos tessalonicenses. Por que um homem tão sábio e tão zeloso do Judaísmo, mudaria assim? O rapaz queria desvendar este mistério. Daí inicia uma peregrinação, que dura um ano, a todas as comunidades e pessoas, às quais Saulo havia escrito. Antes conhece Alana, por quem se apaixona. No ano de 2013, um outro rapaz, Alberto, sem religião, funcionário de um banco estatal, morador de uma capital, no Brasil, vive os dramas da ética moderna, que contraria os princípios que aprendera dos pais e da comunidade cristã em que fora criado. Apaixonado por Aline, embora muito resistente, acaba aprendendo com ela a encontrar nas Sagradas Escrituras o segredo da felicidade. As duas histórias, levam o leitor a refletir sobre os escritos de Saulo de Tarso (O apóstolo Paulo), podendo comparar a ética cristã do primeiro século de nossa era com as exigências da vida no século XXI. Texto escrito, principalmente para iniciantes no cristianismo, mas que pode ser apreciado pelos que já são conhecedores da história clássica.
O autor

É a história de um casal de namorados do século 21 que compara a ética, tomando conhecimento da vida de outro casal de namorados do século 1 da nossa era. À medida que avançamos na leitura da obra nos damos conta de que o que Jesus falou sobre a verdade procede. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (João 8:32). Isso porque Alcer, ao passar pelas comunidades para as quais Paulo escreveu as cartas e conhecer os seus discípulos, começa a entender que a base da doutrina cristã é o amor, em suas mais diversas formas: o amor ágape (amor divino, incondicional), philos (amor fraternal, de amizade) e eros (amor sexual, paixão).
Alberto, 30 anos, namorado de Aline, cujo episódio acontece em 2013, também experimenta do amor e da verdade que liberta ao se interessar pelo conhecimento bíblico. Vindo do interior, de família simples, pai trabalhador em lavouras e mãe lavadeira de roupas, sempre teve que batalhar, até que conseguiu um bom emprego, em um banco estatal, e ainda se formar Economista. Perdeu a mãe cedo e depois o pai. Apesar de todas as dificuldades que enfrentou ao longo da vida, guardou sempre consigo os ensinamentos que recebera deles, como, por exemplo, a honestidade. "Ensina o teu filho no caminho em que deve andar e até quando envelhecer não se desviará dele" (Provérbios 22:6).
Margareth Castro
Jornalista

R$ 25,00 (Frete não Incluso)

No primeiro século da era cristã, Talita conheceu e presenciou os feitos maravilhosos do mestre Jesus, que é o auge do amor de Deus para com os homens. Talita, dotada de um conhecimento histórico, que não vislumbrava a grandiosidade daqueles acontecimentos, tira suas próprias conclusões ao ver as realizações de Cristo.
Em 1971, um fenômeno intrigante chama a atenção da região oeste de Minas Gerais. Na tranquila cidade de Perdigão, duas crianças se deparam com o que poderia ser um sinal de Deus. Elas logo espalham a notícia e outras pessoas presenciam o tal fenômeno.
Livro Talita e Talia: por que os homens matam o amor? é uma habilidosa narrativa que aproxima essas duas histórias ficcionais: uma, baseada em fatos verídicos, que marcaram a vida das pessoas que presenciaram o fenômeno, no interior de Minas, e a outra, que é uma releitura do evangelho de Marcos, através da personagem Talita.
Esta obra é uma ótima oportunidade para refletirmos a respeito de um questionamento e uma possível certeza: Como devemos agir diante de um sinal de Deus? E talvez entendermos que não precisamos chegar a essa resposta, mas, sim, buscá-la sempre.
Grégore Silva Braga
Mestre em Teoria Literária

À Virgem Maria

Minha mãe me dizia, com insistência:

Meu filho, jamais, em tua existência,

Seja na escura noite, seja no claro dia,

Jamais te esqueças de quem, de verdade,

Te ama e protege em qualquer realidade:

Nossa Mãe do céu, a Virgem Maria.

 

Mamãe, Deus levou, eu segui minha vida,

Que é dura, difícil, por vezes, renhida,

Que a fraqueza nos faz querer desistir.

Porém, nos momentos de mais dissabor,

Clamei pela Virgem, vinde em meu favor!

E a tudo eu venci, e pude seguir

 

Dizendo melhor, em muito eu superei

O que eu esperava, quando a luta iniciei,

Apesar da fome, do medo, que tive.

Mas hoje sou rico da Graça e feliz

Com a família e os amigos que fiz.

E sei que com ela sempre eu estive

 

Se, junto a sua imagem, me ponho a rezar,

Peço ao seu Filho, Jesus, para me ajudar.

Pois eu fui tentado a ser a ela infiel,

Pois ouvi tantas vezes: “não reze a Maria.

Ela nada pode, isto é idolatria,

Em nada a elogia a Palavra do Céu”!

 

E, incrédulo, corri a estudar a Escritura

E ali me “enterrei” em intensa leitura

Pra crer pelos olhos e pela razão.

Mas qual não foi o meu sofrimento,

Ao ver que, pra ter este entendimento,

Faltava me apenas a pureza de coração.

 

Vi o quanto era fácil pra se entender 
O que lá nos mostra que Deus quis fazer
Pra dar a todo ser humano a felicidade.
A ação divina é plena e evidente.
Mulheres e homens precisam somente
De coração se dispor a aceitar a verdade

 

Ora, o homem não pode a Deus avistar,
Pois é muito forte a luz e ele pode cegar.
Então o Senhor resolveu, por amor,
Diminuir-se até a nossa possibilidade
E viver a condição de humanidade
Na carne do Mestre Jesus, Salvador.

E, nesta obra de amor e de graça infinita,
Contou com alguém e a chamou bendita.
Era uma jovem simples de puro coração.
Recebeu no seu corpo, do verbo, a semente
Incompreensão enfrentou, certamente.
Sou levado a dizer: ajudou na redenção

 

Aprendi, na leitura, que no terceiro dia,
Lá em Canah, um casamento acontecia
E a Mãe de Jesus estava lá presente.
O hageógrafo mostra, num recurso novo:
A festa é encontro de Deus com seu povo.
E o papel da Senhora está bem evidente

 

Pois, em certo momento, faltando vinho,
Ela instrui os garçons a agir direitinho, 
Logo após, a seu filho, uma frase, ter dito.
E foi assim que seus sinais, Jesus começou.
Pelo menos é o que a Escritura nos contou.
E manifesta sua glória pra o tempo infinito

 

Não pensava eu que a Escritura me mostraria
Tantas vezes a influência da santa Maria
Na história de toda a nossa Redenção.
Ela a nós é entregue pelo Filho Jesus.
E a todos nós recebe aos pés da cruz
E ficará em nossa casa e em nosso coração

 

Ela é chamada de mãe do meu Senhor,
Por aquela que é a mãe do Precursor.
Temos que, esta simbologia, estudar.
E, os apóstolos, após a ressurreição, 
Com ela permaneciam em oração,
Com o povo, o Evangelho, a anunciar

 

Minha mãe querida muito me ensinou.
E eu, apesar do pecador que sou,
Recebo tanta graça que me vem. 
Depois de tudo, peço-vos, Senhora:
Que rogue a Deus por mim, agora,
E na hora da minha morte. Amém!

Minha Terra! Perdigão!

Dirijo a ti o meu olhar, a mando do meu coração

E lembro de tudo que em ti vivi no tempo de outrora:

Teus campos verdes, ruas molhadas, na vida que aflora,

Teus bosques, pastos, uma ponte, um ribeirão.

Com os amigos, jatobá, pequi, nas matas, eu ia procurar.

Aos domingos, uma bandinha me acordava com “alvorada”.

Às dez horas, ia à missa na Igreja da Saúde, roupa bem cuidada,

À tarde, no campo próximo à Vila, ver o América jogar.

Cidade quieta, silente durante toda a semana,

No domingo as ruas eram cheias de gente dos povoados.

Boas conversas, bons negócios, bons tratados,

A tarde a volta, retorno à vida quotidiana!

Noite na praça, fonte luminosa, moças circulando,

Rapazes, parados, tímidos, no passeio, a desejar

Que uma delas nos olhasse e quisesse namorar.

Quem sabe segurar a mão, ali ficávamos sonhando!

Te olhando, vejo quão diferente estás agora.

Mas és o mesmo chão, o mesmo céu, a mesma terra.

Quanto sentimento por ti meu coração encerra.

Guardaste a alma pura e bela do povo de outrora.

Dirijo a ti o meu olhar, a mando do meu coração,

Como quem se foi, em muitos lugares viveu.

Mas, mesmo sempre tentando, nunca te esqueceu,

Oh minha terra natal, rincão querido: Perdigão!

Símbolos Sagrados

Hoje, de manhã, eu vi em jornais

Uma notícia deveras intrigante.

Nas repartições e públicos locais

Símbolo sagrado será proibido, doravante.

 

No Brasil, falando em símbolo sagrado,

Lembra-se de cruz, imagens, medalhinhas,

Pois nosso povo com estes têm rezado.

Fazemos isto desde criancinhas.

 

Não há cidade, aldeia ou outro lugar

Que não haja algo que lembre o religioso.

Então, estes santos objetos retirar,

É, para mim, algo, no mínimo, trabalhoso.

 

E há que se resolver um problemazinho:

Pra onde irá todo esse material

Que foi feito ou comprado com carinho

Por alguém que pensou evitar o mal.

 

O Brasil, justificam isto dizendo:

É um pais multicrente e diversificado

E que estaríamos a outrem ofendendo,

Conservando ali um símbolo sagrado

 

Mas eu pergunto: tudo começou não foi assim?

Respondo eu mesmo: nossa alegria, nossa luz,

As leis, empresas, clubes, o viver tupiniquim,

Tudo nasceu sob o símbolo da cruz.

 

Os meus avós e tataravós viveram

E cresceram sob símbolos cristãos.

Quinhentos anos assim já decorreram

E agora há de acabar num supetão?

E o respeito às tradições, passado e história?

E a vocação cristã do nosso povo?

E a mensagem da Santa Cruz na memória?

Agora vamos começar tudo de novo?

 

Merece respeito, nosso passado,

Embora nós mesmos não o tenhamos feito!

Cometemos, sim, grande pecado.

Mas nós queremos o que for direito.

 

Respeitáveis autoridades, por favor,

Deixem na parede pendurado o Cristo.

Ninguém verá nele menos que amor,

Pois o Brasil há cinco séculos que faz isto.

 

Aqui falamos português, jogamos futebol,

Dançamos samba, maxixe, baião e xaxado.

O tango, rumba, polka e roc’nroll,

O que é diverso têm sido muito amado

 

Nós queremos de todos o respeito,

Principalmente à nossa tradição.

E a tradição é cristã, é esse o nosso jeito,

No sangue da nossa gente e na poeira do chão

 

O estado é laico, mas religioso o povo é.

Em um volante, num palco ou num balcão

Pode estar um homem ou uma mulher de fé

A respeitar aqueles que não o são

Nossa Casa

Nossa casa era no caminho do outeiro

Um morro forte, um largo cascalhado.   

Acima, ficava o miolo do povoado,

Logo abaixo, um ribeirão de pesqueiro.

 

Na seca, o sol forte, as pedras, esquentava

E a rua tornava-se uma fonte de calor.

E a poeira se levantava, em seu rubor,

Ao movimento de qualquer que passava.

Vinham as chuvas, fortes aguaceiros

E a erosão dos quintais e dos terreiros

Mostravam a força da natureza.

 

Menininhos brincavam na enxurrada.

Os pés descalços e a roupa molhada,

Em um viver de graça e de pureza.

Cão de apartamento

Tu dizes que que sou teu céu

Que em mim não há maldade

Que sou teu melhor amigo

Te trago felicidade

 

Se te ausentas, manso, espero

Alegro-me à tua chegada

Me dás comida e carinho

Minha saúde é bem cuidada

Mesmo tendo amor por ti

Meu lugar não é este aqui

Triste está meu coração

 

Eu quero, a terra, cheirar

No quintal, na relva, brincar

Pois não sou gente, sou cão

Janeiro

Janeiro. Ouvi falar deste mês,

Quem, muitas vezes, o viu passar!

Estava a virtude a procurar?

Ou só a se consumir em por quês?

 

Com rugas - nuns feiura, noutros graça -

Nalguns, por anos, bateu coração manso,

Esperando, na descendência, o descanso,

A espera da morte que o corpo enlaça.

Quantos velhos e velhas se alegraram,

Por verem que as lágrimas que derramaram

Receberam de muitos a gratidão.

 

Sobre o chão, outros caminham, todavia,

Vivendo a amargura, da ingratidão e porfia

Daqueles a quem deram o coração.

O Sal da Segurança

O Senhor criou a nós seres humanos,

Usando o sal do acreditar.

Nós devemos nos esforçar

Para merecer a confiança,

Com coração de criança.

 

Quando um homem acredita no outro,

Tudo vai correr bem,

Seja aqui, seja no além.

Gabalé Osun é o sonho da mulher

Que um dia, ser mãe, quer

 

Quando a alma está feliz,

A prosperidade cresce,

A saúde ensoberbece,

Aumentam as amizades,

Vindo a felicidade.

Todos ficam de bem com a gente.

O mundo exterior

Reflete o universo interior.

Quando sei que Deus me escutou

Vejo o bem, nele estou.

 

Estou reconhecendo que o bem

Que me aconteceu foi graça

Não posso exigir que se refaça

Sem que o universo queira.

É assim a vida inteira.

(da crença d’África)

Anjos de Uma Só Asa

Me contaram que Nosso Senhor

criou o homem, depois, a mulher

e a cada um deu um par de asas

Para voar por um céu qualquer.

Quanto poder tinha este casal,

Pra fazer tudo aquilo que quiser!

 

Feliz estava o bom Criador,

Sua obra mais bela a contemplar,

Quando veio um anjo assessor,

Querendo com o Senhor falar:

O Criador se sentou e ao anjo bom,

Paciente, logo pôs-se a escutar.

 

Senhor, exclama o santo anjo!

Permita-me, a vós, algo alertar

Dando duas asas à sua criatura,

Muita liberdade a ela vai dar. 

Não é melhor a liberdade e poder

O Senhor, um pouco, limitar?

Reflete, então, nosso Senhor,

O anjo, sim, razão pode ter,

o ser humano a  voar sozinho

egoísta, mesquinho, pode ser.

Acho melhor tomar-lhe uma asa

E a outra invisível vai ser.

 

E assim nos tornamos então:

Anjos de uma só asa que não vemos

Para que quando nós formos voar

É preciso que nos abracemos

E muita força entre nós haverá

E os sonhos nós realizaremos.

Humilde Poesia

Escrever aquilo que me aquece o coração

Mais uma vez, pra ti, meu Deus, eu tento

Mas sobra-me vontade e falta-me talento

E nas palavras que uso ponho a emoção

 

Não posso, pois não sei, escrever bonito

E a minha poesia é humilde e singela

Mas quero externar a minha fé, por ela

E vou grafando aquilo em que acredito

Meu Deus eu peço, permita que eu consiga

Tornar tua Palavra minha maior amiga

E nela eu possa a sua paz sentir

 

E se é vossa vontade eu escrever, Senhor

Falar quão grande por Ti é o meu amor

Isto farei, enquanto eu existir

Mulher ao Volante

Eu ouvia falar que mulher ao volante

Era sempre um perigo constante,

Mesmo sem fundamento bastante,

Era uma constatação empolgante,

E, pra mim, verdade excitante.

 

O tempo tornou-se um informante:

Isto era machismo arrogante.

Que ela, criteriosa estudante,

Dirige melhor qualquer Possante,

Do que o homem petulante.

 

Constatação importante

É que, nas ruas, a todo instante

Há um veículo, itinerante,

E um marmanjo idiota, ao volante.

Isto sim é perigo constante.

Em vez de falar tal desplante,

Melhor é dizer, doravante,

Que ela, no ônibus, circulante

Ou no caminhão, viajante,

É uma excelente comandante.

 

Salve a mulher atuante!

A exaltemos, doravante.

No nosso mundo mutante,

Sua presença elegante

Torna tudo emocionante.

Plagiando Fernando Pessoa (O Menino de Sua Mãe)

Na estrada do cerrado,

(Que a morna brisa aquece),

Entre as ferragens, esmagado,

Seu corpo triturado,

(Jaz morto, e arrefece).

 

Raia-lhe a roupa o sangue.

Os braços destruídos,

(Moreno, forte, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos).

 

(Tão jovem! que jovem era!

Agora que idade tem?

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome que o mantivera:

O menino de sua mãe)

 

Rasgada a camiseta

Do time do coração.

O escudo no para brisas,

Superfícies, antes lisas,

Retorcidas, agora estão.

 

Espalhados pelo asfalto

Estão alguns cedês.

Clássicos e sertanejos,

Revelam seus desejos,

Seus sonhos e os por quês.

(Lá longe, em casa, há prece:

Que volte cedo, e bem!)

Alguém, que não esquece,

espera e enaltece

(O menino da sua mãe).

 

Desde cedo, o garoto

Aprendeu a guiar

E agora, com emoção,

Guiava o caminhão

Pra a carga entregar

 

Tempo curto, longa meta.

É preciso desdobrar

Tomando seu rebite

Mesmo que acredite

Que vá prejudicar

 

(Lá longe, em casa, há prece:

Que volte cedo, e bem!)

(Malhas que o Sistema tece!)

(Jaz morto, e apodrece,

O menino de sua mãe).

Amigo Dos Meus Pés

Meu grande e querido amigo,

Caminhas sempre comigo

E governas meu pisar.

Sobre superfícies diversas,

Não te metes em conversas,

Vais comigo a caminhar.

 

E por toda a minha vida,

Me carregas em minha lida,

Sobre ti vou trabalhar.

Também ao lazer direto,

Estás, meu amigo dileto,

Os meus pés a acariciar.

 

Não sei qual é sua origem,

Nem quem são os que dirigem

O seu surgir, seu estar.

Por quais mãos terás passado,

Quem te tornou tão amado,

Antes de, a mim, chegar.

És feito em macio couro,

Mais valioso do que ouro,

Os meus dedos a abrigar.

Tua palmilha delicada

Forra meus pés na caminhada,

Por onde eu queira passar.

 

Amigo, quero dizer:

Sem ti não posso viver.

Se te vais, pois, eu me mato.

Depois de tantos anos assim,

Nunca se separe de mim,

Querido amigo sapato.

Amiga Dos Meus Estudos

Vejo te em tantas mãos

De jovens e de anciãos

Teu rastro fica no papel

Da escuridão, do não saber

Para a clareza trazer

Fazendo cair o véu

 

A turma te usando competia

Qual era a melhor caligrafia

Pra agradar à professora

Que ajudando a nos educar

Para a vida enfrentar

A nossa segunda mãe fora

 

No princípio, tu eras “Pena”

De ave grande ou pequena

Depois te tornaste Caneta

E, por último, Lapiseira

Que usamos a vida inteira

E ninguém a ti objeta

 

Quando ainda eras Pena

Não estavas só em cena

E mesmo “caneta tinteiro”

Pois, um vidro de tinta havia

Onde seu bico se introduzia

E era teu companheiro

 

Muitos eram os fabricantes

Deste item tão importante

Que, com tinta, escrevia

E, se ela pingava, então

Havia um “mata borrão”

Que a toda ela absorvia

O primeiro era JOHN FABER

De macio escrever

O segundo era COMPACTOR

O terceiro era ESTUDANTE

Que me foi tão importante

Da aula essencial fator

 

Por fim, surge a esferográfica

De tanta qualidade gráfica

Era chamada lapiseira

Podia a carga trocar

Para o custo baratear

Ainda carregar na algibeira

 

E surgiram tantas marcas

Mas, de todas a monarca

E que ainda hoje é popular

É a tradicional Bic

Que todos pediram: “fique”

E se encontra em todo lugar

 

Para impressionar meus amores

Eu te usava nas quatro cores

Verde, vermelho, preto e azul

Pintava, o sol, a lua,

As casas, o céu, a rua

Também o cruzeiro do sul

 

E, mesmo tendo hoje em dia

Tanta tecnologia,

Duvido que alguém consiga

Ficar sem esta companheira

Caneta ou lapiseira

E que é uma velha amiga

A Estrelinha

É de madrugada,

noite enluarada,

já é quase aurora.

Esta solidão

Faz meu coração

Pulsar toda hora

 

Abro uma janela,

Vejo uma estrela,

Fico a contemplá-la.

Todo o céu me vê

Chamando você,

Penso em ir buscá-la.

 

Peço à estrelinha:

Vá bem caladinha

Lá na casa dela.

E fale baixinho,

Que aqui sozinho,

Eu choro por ela

Assombração

Havia um arraial no fundo de um grotão

Onde a noite era tomada pela escuridão

E ali raramente se via uma raio de luar

Eram poucas famílias que ali moravam

Pois outras que algum dia ali passavam

Por mais que desejassem não podiam ficar

 

Muitos tentaram entender o que acontecia

Desvendar o mistério daquela grota fria

Por que tão poucos se dispunham ficar ali

É que à noite era vista, vestida de branco

Uma senhora mui alta, calçando tamanco

Que flutuava deslocando como um colibri

 

Mas um dia um caboclo que nada temia

Transitava naquele local e acabou o dia

E, na noite, seguiu em frente sua caminhada

Logo, o puro avistou aquela coisa estranha

O seu corpo tremeu, com medo e com sanha

A Deus elevou uma oração bem rezada

Foi chegando pertinho da assombração

Percebeu que ela tinha uma lanterna na mão

E logo uma silhueta lhe pareceu familiar

Desde aquele momento o mistério acabou

Todo o povo que ali morava sossegou

E qualquer hora podia sem medo andar

 

Perto do povoado, numa singela fazendinha

Morava uma senhora que, viúva, era sozinha

Tinha medo fossem seus bens roubados

quando ia ao povoado usava um disfarce

Na cabeça uma trouxa que ninguém despertasse

Ali as coisinhas a vender lá no povoado

 

E por cima de tudo uma capa ela jogava

Isto dava impressão de que a altura aumentava

E a brancura da capa aumentava a ilusão

De que a bondosa senhora que ali caminhava

Que o fruto do suado trabalho levava

Para todos era uma medonha assombração

Era um ninho de passarinho

A frente da minha casa era toda sombreada

Por uma árvore que eu mesmo tinha plantado.

A raiz foi crescendo, o passeio danificando,

Aquela árvore mandei cortar, contrariado.

 

Eu não desconfiava que lá na copa havia

Um ninho de passarinhos com ovos para chocar.

Vi tudo cair ao chão: os ovinhos destruídos,

Um casal de passarinhos, desorientado, a voar

Do poste, para o portão, do portão, para o telhado,

Como numa dança triste, o trajeto triangulado,

A alma destroçada e o coração partido.

 

Comigo, o remorso, hoje vivo carregando,

Pelo sofrimento daquelas avezinhas esvoaçando,

Cujos filhotes amados morreram sem ter nascido

Pra mim já está bom

Morreu dona Francisquinha, que era carola e engraçadinha,

Morreu seu Joaquim Faria, trinta anos na sapataria.

Morreu seu Zé do Carreto, que tinha um cavalo preto

Eu continuo aqui, depois de tudo que já vi.

 

Morreu Sebastião de Bessa, que sempre andou com pressa

Morreu Maria da Luz, que carregou pesada cruz

Morreu seu Maçaranduba, na banda tocava tuba

Estou aqui nesta vida a esperar pela partida

Não tenho nenhuma graça, não há nada que me faça

Conseguir entender a massa e aceitar o que se passa

Não quero viver onde estou, o mundo se revirou

 

Se outra vida há no além, quero estar nela também

Nunca mais vir para o aquém, pois sei que jeito não tem

Esperar a hora eu vou e, certo disto, eu estou.

Vida do Homem

O homem brota da terra, caminha sobre ela,

Pensando saber o que faz, quer tudo dominar.

Senhor de tudo que vê, ele chega a se achar.

Campos, montanhas, rios, destrói ou remodela

 

Na odisseia conhece, a bonança e procela.

Vê efemeridade ou o eterno continuar.

Viajor do mundo, aprende a cair, levantar,

Buscando tornar a obra do criador mais bela.

Todavia, vê seus iguais à terra devolvidos.

Reflexivo, talvez, nisto não veja, sentido.

Ao criar o homem, qual a intenção do Criador?

 

Que é a terra, este “não sei quê” onde tudo está,

De onde brota tudo e pra onde volta tudo que há,

Que tudo, para si atrai? Será isto amor?

Te Espero

Vem a noite caindo, o frio me envolvendo.

Uma lágrima, minha face, insiste em banhar.

Meu corpo está triste e minha alma doendo.

Sem a tua presença é tão difícil eu ficar!

 

Só nós dois sabemos: o nosso caso é sagrado.

De um longínquo planeta, tu e eu viemos,

Muito diferente, deste mundo atormentado.

O coração, um do outro, só nós dois conhecemos.

Sei que o Maior me mandou, a ti e o teu amor.

Bondade e beleza vieram a mim em favor.

Qual aragem, no deserto quente da minha vida.

 

Eu te espero porque te amo e te desejo.

Sei que, nos meus braços, terei o calor dos teus beijos

E te darei todo o meu amor minha querida!

O Ladrão

Tranqüilo eu estava em casa

Quando, na porta, alguém bateu

Ao atender, o sofrido rosto

De um estranho apareceu

 

Apavorado, falou-me

“Por favor, me dê guarida

Estou sendo perseguido

E temo por minha vida

 

Querem pegar-me porque

Uma coisa eu roubei

Sou um ladrão que lhe pede

Me ajude a escapar da lei”

 

Ouvi barulhos e tropelos

E gritos: “pega ladrão!

Vamos agora ensiná-lo

Pra que não roube mais não”

 

Foi um momento difícil

Pra tomar uma decisão

Eu deveria ser justo?

Ou devia ter compaixão?

 

O tempo era pouco e, decido,

A ouvir meu coração

Num ato de continuidade

Mandei entrar o ladrão

 

Depois que tudo acalmou

Perguntei ao degredado

Por que, em vez da virtude

Preferiste o pecado?

 

“Desculpe, moço, lhe conto

Que não tenho opção

Sem preparo, sem estudo

Fico sem colocação

 

Pra comer, eu e a família

Eu tenho que me virar

E, nesta hora, errado e certo

Não consigo separar

Entro logo num mercado

Espero alguém descuidar

Pego um biscoito, um pão

Pra minha casa vou levar

 

Muitas vezes aconteceu

Peguei o que estava à mão

E, até agora, meu senhor

Ninguém percebera não

 

Mas hoje a casa caiu

Estou passando um aperto

Não me delate, por favor

Doravante vou andar certo

 

Depois de muito conversarmos

O homem daqui partiu

Mas ser criatura regular

Não sei se ele conseguiu

 

Só sei que falar mal dele

Nunca mais eu escutei

Peço a Deus que a ele ajude

A viver a Sua Lei

 

Meu Deus, a vós agora peço

De todos os humanos cuidai

Aos pobres, supri, Senhor!

E, aos que sofrem, amparai

 

São tantos que sofrem, Senhor

Com fome, doença assaz 

E caminham pela terra

Sem luz, sem guia, sem paz

 

Cuidai, Senhor, destes irmãos

Daí lhes saúde e alegria

E ajude a todos nós

A, em Vós, viver nossos dias

Sagrado Alimento

Em uma fazenda de muito trabalho,

Reunia debaixo dos pés de café,

Toda a “piãozada” pra tocar viola,

Cantar desafio manifestar sua fé.

Com graça e humor pediam alimento,

Pois saco vazio não para de pé.

 

E na brincadeira outros respondiam:

Cantando seus cantos pra desafiar:

“Por que você mesmo, a sua comida

Não vai à cozinha para preparar?

Se come primeiro não podes servir

Pois saco cheio não pode envergar”.

E o clamor surgia em cantiga entoada:

“Vamos fazer juntos, ó ‘companheirada’,

Na graça que tem o alimento oferecido.

 

Façamos partilha, que a hora é sagrada.

Possamos comer e enfrentar a jornada

A Deus agradecendo o que foi recebido”.

À Amada

Teu rosto é vivido,

Sofrido.

Teus olhos estão cansados, mas cheios de ternura,

Alma pura.

Teu coração é cheio de amor,

Frescor.

Guardas as marcas do teu passado de luta,

Labuta.

E as lembranças da tua vida sofrida,

Renhida.

Tua alma é vida e coragem,

Aragem.

Tens a inquietude dos guerreiros e a indignação dos santos.

Teu interior é uma fogueira que lança as chamas através do teu silêncio.

Tu és sentinela do bem, guardiã da paz.

Tu és a calmaria, depois da tempestade.

Segurança, após o maremoto.

Deus te fez com tudo que era bom.

Você é o bem.

Meu bem! 

Entendendo o Graal

Li sobre o graal nos escritos de muita gente.

Compreendi que o graal existe de verdade.

Mas cada qual o explica de forma diferente

E por poucos é descrita a sua total realidade.

 

Todos os que se dispuseram a, o graal, explicar

Estão errados mas, certos, ao mesmo tempo.

Como na literatura bíblica, buscam expressar

De forma que possa se perpetuar no tempo.

 

Graal é o registro do cume do conhecimento

Que o homem vai acumulando dia após dia.

Mas, que poderia vir cair no esquecimento

Ou sua clareza e utilidade não se evidencia.

Pelo risco de, entendido, ser mal usado,

Procurou se preservar este conhecimento

Adquirido com dedicação, sangue derramado,

À custa de muito heroísmo e sofrimento.

 

Ciência aprendida para que esteja à disposição

De quem acredita, compreende a humanidade,

Como algo a ver com fraternal proposição,

Entende ser o mundo, de todos, responsabilidade.

 

O Graal se apresenta ante a eterna liberdade

Que foi dada ao homem para se decidir:

Fazer o bem ou se debruçar sobre a maldade,

No Livre Arbítrio que ele tem para agir.

Nossos Velhos

Para alimentos comprar

Ou roupas adquirir,

Pra ir à farmácia, a um bar,

De casa eu tenho que sair.

 

Se vou comprar pão ou leite,

Bolo, manteiga ou café,

Se preciso buscar azeite

Na padaria do Zé.

 

Pois tenho osteoporose,

Gota serena, reumatismo,

Hipertensão e artrose,

Bico de papagaio e botulismo.

 

Se preciso ir à feira,

Alguma verdura comprar,

Só existe uma maneira:

Na rua tenho que andar.

 

Pois a saúde pede chá

De alfavaca, de alecrim,

Ou mesmo de jatobá,

De flor-do-campo ou jasmim.

 

Velho tem que comer melão,

Maçã, pera e abacaxi.

Também faz falta o mamão,

O abacate, o morango e o caqui.

 

Roupa nova é coisa rara,

Nem motivos pra isto tenho.

E também ela está cara.

Mas vez ou outra a obtenho.

Isto tudo é pra falar

Que idoso sai às ruas,

Atravessa devagar,

Sem forças nas pernas suas.

 

Ora, o automóvel é potente,

Com um insensato ao volante,

Que dono da rua se sente

E vira perigo constante.

 

Tem faixa branca pintada

Pro pedestre atravessar,

Mas pessoa debilitada

Não consegue confiar.

 

Quando dono do mundo eu for,

Quero uma lei sancionar:

Os velhos, senhora e senhor,

Serão seres a se respeitar.

 

Se um carro encosta em um ancião,

Seu dono já estará condenado

A perder, sem apelação,

Sua licença de malvado.

 

Terá que andar a pé

E por todos ser notado,

Por ter um dia, sem fé,

Um velhinho atropelado!

O Contador

Falo aqui de um bom sujeito

Que estará sempre em meu peito,

Companheiro, amigo e irmão.

Ele nasceu lá no Batista

E era mesmo um artista,

Tocava sanfona e violão.

 

De cantar ele gostava,

Mas antes de tudo estava

A família e o trabalho.

Seja à capina, ao roçado,

Ele ia cedo bem animado

E não procurava atalho.

 

Gostava de contar história.

Quer saber? A sua glória

Era seus filhos por perto.

Vou ter que contar aqui

Uma história que me fez rir

E ninguém já ouviu, por certo.

 

Diz que um homem bicão

Ouviu falar que o Japão

Ficava embaixo da terra.

Pegou logo uma cavadeira,

Começou cavar a eira

E a retirar a terra.

O homem assim foi cavando

E o buraco só aumentando,

Nunca houvera coisa assim

E, então, de forma lenta,

O homem e sua ferramenta

Desapareceram, enfim.

 

Na Terra do Sol Nascente,

Dona keiko, de repente,

Julgou recomeçar a guerra.

Nunca vira aquilo ali,

Na travessa de sushi,

Estava caindo terra.

 

Como isto tudo terminou

Meu “contador” não contou,

Nem como bicão se sai.

Mas vou dizer uma verdade:

Eu sinto é muita saudade,

O contador era meu pai.

O Santo e o Tinhoso

Andando pelas campinas,

A buscar destino além,

Certo homem, em seu cavalo,

Ia só sem mais ninguém.

 

Ia num trote prazeroso,

Naquele caminho batido.

Sacudia suas entranhas

E tudo mais ali contido.

 

A fome se lhe apertou,

Ele abriu seu embornal

E a farinha temperou

Com açúcar e com sal.

 

Ia comer sua merenda,

Mas sentiu que precisava,

Antes de botar o novo,

Tirar o que lá estava.

 

Além disso, o velho santo

Nunca, jamais, se esquecia

De rezar agradecendo

O alimento que recebia.

 

Mas o que fazer primeiro,

Se as três coisas tinham urgência?

Preferiu, de uma só vez

Resolver toda a pendência.

 

Mas não tinha desconfiado,

Nosso homem de alma pura,

Que estava sendo vigiado

Por uma sinistra figura.

O “Encardido” ao ver o santo

Comendo, “descomendo” e orando,

Com tanta inveja do puro,

Ficou a ele perturbando:

 

“Em minha vida encardida,

Nunca vi bobeira maior,

Fazer esta três coisas juntas,

Nem sei qual é a pior!

 

Certamente você caipira,

Nunca saberá explicar,

Nem aqui e nem na China

E nem em outro lugar”.

 

E o santo, calmamente,

Respondeu a Satanás:

“Eu explico tudo agora

E você me deixe em paz.

 

Desde cedo eu aprendi

Ser grato e a Deus rezar.

Se você tem inteligência,

Passe agora a escutar:

 

Eu como para o meu corpo

E rezo pra minha alma

E a terceira coisa que faço,

Vou te dizer com calma:

 

É um presente que deixo

Pra quem muito isto merece.

É pra ti mesmo, ó capeta,

Aprecia e desaparece”. 

O Galo Jacó

Isto aconteceu no tempo

que as aves tinham gogó.

Vou contar fato verídico,

preste atenção, escute só:

 

No quintal de uma fazenda,

antes de se ouvir a mó,

bem cedinho, junto à moenda,

cantava o galo carijó.

 

De manhã, a galinhada,

numa barulheira só,

conversava ajuntada,

perante o galo Jacó.

 

Esta foi uma noite fria,

dizia o frango Xicó,

só penugem lhe nascia,

mais parecia um filó.

 

Os ovos que estou chocando

nunca podem ficar só,

senão os vai devorando

o insano gato Bechó.

 

Protejo os meus pintinhos,

dizia a galinha Caicó,

não posso deixar o ninho,

senão os pintos morrem só.

Na conversa, veio dar pitaco,

a galinha d’angola, sem dó,

gritando: “fraco, tô fraco”

feito o nhambu chororó.

 

Neste instante, uma estalo,

o grupo espalha em redor. 

Um torrão acerta o galo,

vindo lá do cafundó.

 

E a galinha mais achegada

ao querido galo Jacó,

vai dizendo apiedada:

veja isto, veja só!

 

E Jacó, co’a asa ferida,

vai dizendo ao seu xodó:

se afasta disto querida,

se afasta, me deixa só.

 

Foi esta bela cena caipira

presenciada por minha avó,

que nunca falou mentira,

acompanhada, nem só

A Chuva

É noite. Eu, no leito, ao me recolher,

Rezo a Deus e agradeço, por inteiro.

Por seu amor, mais um dia pude viver.

E em paz, afago o meu travesseiro.

 

Do meu quarto, onde está o meu sagrado,

Ouço a chuva, lá fora, o chão acariciando.

Ela é insistente, bate de leve, no telhado.

E eu sinto o cheiro, das telhas se molhando.

 

A chuva atrita a pedra do meu quintal,

É, para mim, uma longa e bela serenata.

Os sons são diversos, numa sinfonia celestial.

À luz da rua refletem os pingos cor de prata

Céu que cai na terra em pingos de luz brilhante,

Que se esparramam como a entoar um hino.

É Deus que ouço, pois o meu Deus é cantante.

Canta ninando o mundo pequenino.

 

A minha irmã chuva molha, dá vida e esperança.

Ação divina a lavar e purificar a humanidade.

Também minha alma deseja, nesta divina dança,

Ser plena, santa, viva de amor, de paz e de verdade. 

Pachorra

Hoje é domingo eu vou curtir minha preguiça

Me custa sair de casa, mal quero ir à missa

Nenhuma sugestão, nenhum convite me atiça

Se este fala em me distanciar da minha cama

Cujo branco, cheiroso lençol a mim me chama

E o travesseiro de fronha límpida me aclama

 

Deste ninho não saio nem que a vaca tussa

Nem que meu cão vá latir na língua russa

Ou que o bicho papão mostre sua fuça

Me estico no meu leito e fico ali quietinho

Só mexo com os dedos bem devagarzinho

E se pegar no sono durmo gostozinho

 

Apenas uma viagem posso ter eu em mente

Andar cinco metros até a porta da frente

E lá vou eu ver a minha rua e vou indolente

Isto porque, no domingo, minha rua é calma

E esta quietude serena enebria a minha alma

E lá tem a sombra de uma pequena palma

Reservo energias porque eu vou necessitar

Para à tarde o controle remoto eu apertar  

Em passiva diversão, me entreter e folgar

Sou feliz pois tenho a consciência em paz

O trabalho foi sempre o companheiro tenaz

De uma vida que já é longa e alegria me traz

 

Há um ditado antigo, por mim confirmado

Que afirma que um velho, se está abandonado

Certamente jamais fora um jovem ajuizado

Quanto a mim busquei sempre andar direitinho

Implorei a presença do Senhor em meu caminho

Ele me acompanhou, nunca estive sozinho

Para Você

Ao vê-la sinto alegria,

Meu coração tudo cede.

Quero lhe dar tanta coisa,

Mas você nada me pede.

 

Quero fazê-la mais feliz,

Minha alma fica aflita.

Quero lhe dar o que pedir,

Mas você nada solicita.

 

Quero viver para você

E tudo o mais que espere.

Eu não sei o que lhe dar

E você nada a mim sugere.

 

Diante de você sou escravo

Por isto minha alma se aflige.

Quero lhe dar até a vida,

Mas você nada de mim exige.

Meu coração diz agora:

Nunca amou tanto uma mulher.

Eu tenho tanto pra lhe dar,

Mas você não diz se quer.

 

Se lhe chamo a mim você vem,

Sempre terna, amorosa, bela,

Se senta a meu lado me ouve,

Me faz rir, me alegra e anela.

 

Seu corpo é ágil, tão lindo,

É provocante, é atraente!

Você é mulher, bem mulher,

Feminina, totalmente!

 

Linda mulher, linda flor!

Relutei, resisti, então,

Por fim confesso, meu amor,

É todo seu meu coração

Canticos dos Canticos (2, 8-17)

No prado verde, sobre a relva fria

Onde a vida, com vigor, brota ditosa

Sobre a terra viva, ela caminha venturosa

E tudo em volta a saúda com alegria

 

E pela úmida e extensa pradaria

Bela campina se estende airosa

E a moça, leve, suave e desditosa

O seu querer se torna em fantasia

 

Seu coração bate forte de desejo

Sua alma é enlevada e fértil juventude

Ela deseja. Ela lamenta a sina rude

Seu peito explode no oportuno ensejo

 

Pois se doa em ato benfazejo

Serve ao mundo em nobre atitude

E nunca sobra tempo pra que mude

Uma volúpia a tenha só um lampejo

 

Sonha o grande amor de sua vida

E pode vê-lo, assim, em muitos lugares

Está bem próximo, ouve os seus cantares

E ouve sua voz a chamá-la: “querida”

Braços estendidos, elogia e convida:

“Sinta o calor quando me abraçares 

E nos meus olhos, quando tu os olhares

Verás o amor e minha voz contida”.

 

Doce voz a acariciava cantando:

“O tempo de vazio e tédio se passou.

Tempo novo de felicidade chegou

Para que vá o desejo realizando”

 

Um canto novo em dueto e tudo acalma

No seu devaneio, ela sente-se amada,

Tem seu amado, não lhe falta mais nada

É comunhão total de corpo e de alma

 

Nesse ínterim ela suplica, num lamento,

Ao seu devaneio que não, não se desfaça

Não volte a árida rotina que ameaça 

Sua fantasia de amor e sentimento

Meu Deus

Hoje compreendo, meu Deus, e a Ti sou grato

Porque eu tenho agora o que sempre desejei

No mais íntimo do meu ser, conhecer-Te, de fato.

Ver a tua justiça e a tua paz, que sempre esperei.

 

Muitas vezes pensei que jamais eu fosse receber

Tua graça, Tua presença como criatura amada

Nestes meus longos anos, velastes o meu viver

Me carregastes ao longo da minha caminhada.

 

Como sou lento em compreender, Senhor

Quão suave, mansa, doce e definitiva é tua voz!

Como é bom ouvir-Te seja aonde eu for

Falar contigo, junto aos irmãos ou às sós.

Eu estive sempre contigo e me venceste.

Mas não sabia que eras Tu minha proteção..

Definitivamente em teu colo me acolheste.

Estavas sempre no meu agir, no meu coração.

 

Se, no passado, pisei algum espinho

(Pelo que me dás agora), nenhuma importância traz

Jamais permita, Deus, que meu caminho

Seja qualquer riqueza maior que tua paz

Não

Não quero mudar o mundo

Nem parecer arrogante

Mas descer naquele fosso

Nem por algo importante

 

O homem é obra de Deus

E a Ele é semelhante

De pena, ninguém dependa

Não deixe isto ir adiante

Pois nós somos, certamente

Do espaço, viajantes

Tudo que a nós vier

Agradeçamos a todo instante

 

Se Deus nos manda um espinho

Arranquemos e sigamos avante

Pois, se a nós, nos foi mandado

É porque é importante

Lamento

Como posso desejar

Pra meu filho habitar

Um mundo onde haja união

Se no meu Brasil inteiro

Sei que há tantos companheiros

Vivendo sem ilusão

 

Pois todos nós, eu suponho,

Embarcamos em um sonho

Que veio desmoronar

Assim, esse, que é meu povo

Quero ver sorrir de novo

Depois posso descansar

O Grande Prêmio

Que minha presença não seja notada

Senão se se precisar de apoio

Que ninguém jamais me tema

E digam sempre: ele é inofensivo

Que ninguém nunca se sinta

Incomodado por mim

Que digam: ele não está precisando de nada

Que as pessoas contem comigo e digam:

Ele me ajudará ou fará por mim

E que, ao morrer, os amigos digam:

Foi se um bom sujeito, sentiremos falta dele

E a família completa me devolva a Deus

Com o coração repleto de paz.

Uma Alma Libertada

Meu avô contava esta história intrigante

Seu rosto assumia uma expressão importante

Sempre que falava do sobrenatural

Sua seriedade patente e seu respeito

Para tudo aquilo que explicar não tinha jeito

Era o que nos fazia dar-lhe crédito total

 

Contou que uma vez trabalhando no roçado

Ouviu uma voz fraca de quem parecia desesperado

Vinda do alto, do galho, da árvore frondosa

No grande carvalho viu uma avezinha

Fitando-o ali estava uma rolinha

E, pendurada em seu pescoço, uma jóia valiosa

 

Meu avô, homem de fé e alma pura não estranhou

Quando a ave, naturalmente, lhe falou:

“Eu não sou pássaro, mas uma alma penada.

Peço-lhe, por caridade, me ajude a, no céu, entrar,

Leve e deixe no lugar que deva estar

Esta jóia com a qual fui enterrada”.

Saudades das Gerais

Ó Triângulo Mineiro, torrão altaneiro, aqui sou feliz , mas não esqueço das minhas Minas Gerais.

Sobra sentimento, sobra saudade da terra, do ferro que a terra invade, de lá onde a simplicidade faz diálogo com a humildade, que parece santidade.

Em volta de Belo Horizonte, a brisa que vem do monte traz, das flores, o perfume de araticum, jatobá, de gabiroba, de araçá.

Aqui finquei minha vida, árida e enternecida, tentando encontrar a paz. Mas não dá pra esquecer onde está meu bem querer, nas alterosas gerais.

Aqui é Minas também, bela terra, fértil chão.

Aqui tem povo trabalhador, gente de muito amor, de progresso e de paz.

Aqui tem belas planícies, mas não é a Minas Gerais, onde tive a meninice.

Aqui tem moça formosa, tem sol, brisa, luar. Mas não tem alterosa, não tem o dedo de prosa, como os mineiros de lá.

Pois lá o ar é mais denso, tem cheiro de sofrimento de quem vive em terra pobre, onde a riqueza é escassa, o que fortalece a raça do homem e da mulher nobre.

Amo o Triângulo Mineiro, mas peço, por caridade, a este povo altaneiro: me deixa sentir saudade.

Quem conhece nossas Minas não as esquece jamais.

Aqui tem força e riqueza,

Lá, poesia e beleza.

São nossas Minas Gerais.

Feriado

Hoje é sábado e feriado nacional. Que coincidência terrível! Acordo às seis horas, como de costume. Ligo logo a TV, pois quero ver o noticiário, mas me lembro logo que não há noticiário matinal, pois é sábado. Tento dormir de novo e não consigo. Pego o controle remoto e começo a passear pelos canais, buscando encontrar algo interessante pra ver. Alguns filmes já começados, não me interessam. Nos demais canais, só coisas sem graça. Minha mulher dorme como um anjo. Levanto-me, vou à cozinha, ligo o rádio AM (nunca gostei de ouvir FM. Só tem música e algumas outras coisas, nada a ver). Numa rádio, um programa onde estão sendo discutidas questões entre a prefeitura e os cidadãos. Participam alguns políticos. Não sei se acredito neles. Mesmo assim, continuo ouvindo. Faço um café e o tomo acompanhado do pãozinho amanteigado. Antes, porém, como minha maçã de todos os dias. A fruta estava na geladeira. Gosto de comer algo frio antes do café com leite quentinho. Terminado o desjejum, vou até a varanda da sala para pegar o jornal. Abro-o sobre a mesa da cozinha. Os assuntos são os mesmos de sempre. Vejo primeiro o obituário. Constato mais uma vez que a maioria dos “de cujus” são menos antigos do que eu. Já estou no lucro – penso. Depois vejo “O que abre e o que fecha neste feriado”: clubes, grandes supermercados, algumas farmácias, etc (como nos anos anteriores). Depois vejo o noticiário esportivo, página social. Por último, as manchetes políticas e policiais. Nada acrescentou a mim. Dobro o jornal com cuidado, passo em volta a mesma borrachinha e o deixo sobre a mesa pra minha mulher ver logo que acordar, para eu não correr maiores riscos de ela não o encontrar e se vingar de mim. Lembro-me que preciso comprar algumas coisas para o escritório e me levanto pra sair de casa. Sento-me de novo, pois me lembro que este tipo de comércio está fechado. Penso em ir ao mercado comprar alguma coisa e me distrair, mas me lembro do chato do meu médico me mandando perder vinte quilos. Resolvo ir ao clube, mas me lembro de que vou encontrar umas pessoas de sempre sentadas à mesa a tomar cerveja e a comer petiscos. Sei que eles vão insistir para que eu me sente com eles e eu não vou resistir. Lembro-me de novo do chato do meu médico. Desisto. Volto a ligar o rádio. Continua aquele mesmo programa, agora o debate está bem acalorado. Mas continuo sem saber se acredito neles. Decido desligar o rádio. Vou andar um pouco pelas ruas. Saio. Caminho por uma rua, dobro a esquina, ando em outra e em outra rua. Tá tudo parado. Parece que não mora ninguém nesta cidade. É certo que passam por mim alguns carros, mas quem os dirige não me conhece, nem eu conheço quem os dirige. Bate em mim uma depressão. Resolvo voltar pra casa. Não sei quem inventou o feriado, mas acho que esta pessoa deveria ser condenada a ficar de feriado a vida toda. 

Mulher, Sexo Frágil ?

Nós homens, em geral, somos mais fortes do que a mulher fisicamente.

Numa luta corporal, dificilmente perderíamos.

Emocionalmente também somos muito mais “duros”.

Conseguimos esconder melhor nossos sentimentos e emoções.

Homem não chora. Isto ele aprende muito bem e desde pequeno.

Porém, forte mesmo é a mulher.

É ela que sofre as dores do parto, a qual, dizem os entendidos, nenhum homem suportaria.

Ou passa pelas cesarianas e se recupera e rapidamente está cuidando da casa e dos filhos.

Ela sofre, muitas vezes, suportando maridos machistas.

Percebo que alguns são incompetentes, inseguros e, por isto, cheios de complexos.

E descarregam toda a sua frustração sobre a sua mulher.

Conheço muitos casais cuja história me permite concluir que:

Se ela é inteligente, competente, se faz sucesso no trabalho e na sociedade, coitada! Se é dependente financeiramente, aí, meu Deus, “sai de baixo”!

O cara deita e rola. Diz que é ele quem manda porque é quem traz dinheiro pra casa.

Este é o argumento mais triste, que revela o quanto o sujeito é insensível. Alguns aproveitam até a diferença de força física para diminuir a mulher.

Porém, não culpo só o homem por tudo isto.

Quem inventou a história de que a mulher é a “rainha do lar”?

Que a mulher é o “sexo frágil ”?

Que ser mãe é padecer no paraíso?

Que a “mulher é anjo”?

Quem endeusou a mulher?

Quem criou a cultura do cavalheirismo?

Por que só é chamado “cavalheiro” o homem que abre portas pra mulher?

Por que só é chamado fino o homem que estende um tapete a ela?

É por que elas gostam disto.

Quem inventou tudo isto fomos nós homens.

O homem inventou isto para dominar as mulheres e elas não perceberam.

Enquanto elas acreditaram que eram “estas coisas todas”, elas aceitaram tudo que o homem quis fazer.

Elas não perceberam que qualquer tratamento diferenciado dado a uma mulher que não seja o respeito devido a uma filha de Deus é machismo. É enrolá-la.

É passar mel na boca dela.

Foi isto que nós homens fizemos durante muitos séculos e as mulheres caíram feito patinhas.

Elas gostavam.

Elas sempre gostaram de ver o homem carregá-las tendo ele os pés na lama e elas não sujassem os pezinhos.

Nunca reclamaram disto.

Tantos poetas cantaram a “angelicaleza”, a “fragilidade”, a “pureza”, a “beleza” e outras “ezas” da mulher num exacerbado romantismo e a literatura está repleta destes poemas.

Como alguém que é carregada, recebe flores, é endeusada, é sexo frágil, sofre por ser mãe, em suma, recebeu de Deus mais “castigos do que bênçãos”  (entre aspas) pode não ser um ente inferior?

Pois foi esta ideia que o homem passou para a mulher durante séculos e ela aceitou.

Ela quis a comodidade em troca de submissão.

Percebi que em nenhum livro do mundo, seja ele de que época for, está escrito que um sexo é melhor, menor ou mais frágil do que o outro.

Na Bíblia, muito menos.

A Bíblia é cheia de exemplos de heroínas que lutaram, lutaram, lutaram, como Maria Mãe de Jesus, Débora, a juíza, Rute, a Moabita, Éster, a plebeia que se tornou rainha, a filha de Jefté, sacrificada virgem e consciente por um compromisso de seu pai com Deus, Raquel que socorreu Jacó, Priscilla, que socorreu Paulo, Maria Madalena, que foi enfrentar o “constrangimento (entre aspas)” de ungir o corpo de Jesus, as filhas de Ló, que toparam incesto para garantir a descendência do pai.

De outro lado tem as mulheres do mal como Jezebel, Salomé, Herodise; mulheres fracas como Eva e a mulher de Ló, vítimas como Tamar, Lia e tantas outras.

Só posso concluir que homem e mulher são complementos. São o côncavo e convexo. Deus nos fez homem e mulher. Está no Gêneses. Homem sem mulher não é nada. Mulher sem homem nada é.

Solidão

Ao pensar em solidão, voltou a minha mente o que senti logo após o dia primeiro de janeiro, quando o jornal Correio publicou em manchete de primeira página que cinquenta e três pessoas tinham perdido a vida nas estradas de Minas Gerais, nos feriados de fim de ano. Ao ler isto, bateu em mim um sentimento de intensa solidão. Sinto-me só porque só eu tenho certeza de que estes acidentes deveriam ter sido evitados. Só eu não consigo compreender porque, em uma semana em que comemoramos o nascimento do Senhor da vida e depois o começo de um Novo Ano, quando queremos renovar nossas alegrias e esperanças, cinquenta e três irmãos e irmãs nossos perdem a vida de modo violento e estúpido. Só eu não compreendo porque tem que haver tanto perigo nas estradas. Só eu não compreendo porque, quando temos os automóveis construídos com tecnologia jamais vista e, por si só, não oferecem nenhum perigo a quem os utiliza; as rodovias, embora não estejam ótimas, estão em estado de conservação há muito tempo não visto, não sendo elas também justificativa para acidentes; as polícias rodoviárias nunca tiveram homens tão bem preparados e que nos inspirassem tanta confiança pela qualidade do elemento humano que as compõem; os meios de comunicação, sejam GPS, telefones celulares, etc, nunca estiveram tão acessíveis; os governos e iniciativa privada estejam investindo tanto em aconselhamento na mídia para que as pessoas saibam se comportar no trânsito, de forma a fugir da tragédia; a legislação esteja tão rígida, notadamente quanto à questão de se misturar bebida e direção; por fim, a consciência da maioria das pessoas que guiam o automóvel seja de que deve se dirigir com cuidado, continue a morrer tanta gente nas estradas. Só eu não compreendo por que a soma de todos estes fatores positivos acabam se fechando numa equação de resultado negativo. E muito negativo. Fico pensando qual elemento poderia ser introduzido nestes fatores, cujo grau de positividade, interferisse definitivamente no resultado final para que também este seja positivo. Nesta hora é que a solidão bate mais pesada. Nesta hora que intuo estar eu condenado a caminhar só por toda a vida. A solidão é ruim, a não ser que ela venha, mas não insista em ficar. Mas no meu caso, ela está querendo morar comigo definitivamente. Mas eu insisto em perguntar: será que há necessidade de tanto automóvel? Será que ônibus, trens, metrôs, bicicletas não seriam melhor para a nossa mobilidade? Talvez, gostemos muito de andar de carro. Então, como tudo na vida tem custos, não seria o caso de montarmos nova equação? Ou seja: alargaríamos nossas rodovias que teriam muitas faixas de tráfego, as de ida estariam bem afastadas das de vinda. Haveria uma sinalização bem clara e visível. O policial teria autoridade de verdade e emitiria multas pra todo e qualquer infrator. Qualquer pessoa poderia fotografar ou filmar infração de outrem com o celular que todos nós carregamos e enviar às autoridades que analisariam. O custo disto tudo? O custo seria rateado por quem quer usar automóvel que ocupa três, quatro ou mais metros quadrados na rua e na rodovia para carregar uma só pessoa. Não seria isto justiça no trânsito? Se assim for, quem sabe, as famílias não venham mais chorar seus entes queridos mortos em acidentes desnecessários e estúpidos. Uma morte já é muito. 

Ilusão

Caro Valter,

       Obrigado por ter aberto esta carta e a estar lendo. Sei que só pessoas de alma nobre e de coração puro como você são capazes de atos de generosidade como este. Sei que você fez isto, mesmo sabendo que o que nela continha, mas uma vez, eram as recordações e as divagações, as histórias fantasiosas, próprias da imaginação de um homem que, por toda a vida foi sonhador. Sei que você faz isto com tanta paciência e amor só por causa da nossa eterna amizade. Amizade que só existe por causa do seu grande coração e não por que eu a tenha merecido. Portanto, peço a você, querido amigo, que a leia até o fim.

       O que vou lhe narrar, velho amigo, aconteceu numa pequena sala ... numa sala de trabalho. Talvez eu possa chamar de consultório. Acho melhor eu antes lhe contar umas coisas. Você sabe como é ... o tempo tem passado muito rápido pra mim. E algumas coisas vêm mudando. Às vezes sinto meu corpo cansando muito depressa. É ... É isto! Às vezes sinto dificuldades para fazer algumas coisas que antes eu fazia com facilidade, como bater uma bolinha, arrumar alguma coisa no telhado da casa, arrastar um móvel. É! Acho que você entende! Já estou vivendo há tanto tempo! Ah, preciso narrar lhe o que aconteceu naquela sala. Era de tardezinha, quando cheguei lá. Eu estava ansioso para lá estar. Era uma sala pequena. Ali havia poucas coisas: uma mesinha, um computador, duas cadeiras, uma pequena estante com alguns livros, uma jarra com água, alguns copos, alguns guardanapos. Na parede havia um quadro. Não entendi o que o artista quis pintar, mas nele havia algo como ... paz. Tudo muito delicado e sóbrio, como sua dona. Já era, talvez, a sétima ou oitava vez que nos encontrávamos e eu estava gostando, cada vez mais, de estar com ela. Eu me sentia sempre um pouco encabulado, é claro, por estar frente a frente com aquela moça bonita, competente, tão séria e, ao mesmo tempo, tão bem humorada e humilde. Eu me preocupava muito com a maneira como devia me comportar perto dela. Eu procurava conquistar o seu respeito, sua simpatia e, quem sabe, sua amizade. Eu estava acreditando piamente naquele trabalho que ela, profissional que conquistara a confiança de tanta gente, pudesse ajudar-me a me livrar de um problema físico pequeno, mas que me incomodava muito. Contudo, apesar de nossos repetidos encontros, em vez de me acostumar e me acalmar, eu ficava mais nervoso e excitado, nos momentos que os antecediam. Naquele dia, então, eu estava mais ansioso por vê-la ... mais feliz. E, justo naquele dia, ela veio me receber na porta do corredor e me saudou com um sorriso. Eu estava feliz, ansioso, mas contido. Olhei seu rosto, que antes era moreno, hoje estava mais claro, mais branco e ela estava mais linda ... tão linda! Sua expressão me pareceu sensual, ansiosa, criança. Parecia-me que ela estava ansiosa, nervosa, mulher que – meu coração dispara quando me lembro – espera o homem por quem, talvez, esteja se apaixonando. Será que estava acontecendo com ela algo parecido com o que me acontecia? Será que eu estava tocando o coração dela? Acho que tudo isto não passava de conjecturas, suposições, fantasias e, com certeza, muito desejo de minha parte de que fosse realidade! Todavia, mesmo consciente disto, nada fiz que visasse a racionalizar o encanto daquele momento que tanto bem me fez. Além disto, uma certeza eu tive naquele instante: eu estava amando aquela mulher. Era a loucura do meu coração que se manifestava com clareza. Senti suave felicidade e o coração bater mais forte, por saber que eu estaria com ela por mais de meia hora, a partir daquele momento, assim podendo olhar de perto o seu rosto próximo ao meu e ouvir sua voz. Juntos, adentramos o ambiente e, como sempre, iniciou me perguntando como passara a semana, se tinha feito os exercícios que ela recomendara e se eles não tinham me incomodado.

       Enquanto a sessão acontecia, eu não conseguia deixar de admirá-la. Quando procurei os seus serviços profissionais, por saber que excelente profissional ela era, eu houvera intuído que conviveria semanalmente, por alguns meses, com uma mulher que saberia me ajudar a resolver os problemas que me apareceram. Porém, confesso a você, caro Valter, que jamais imaginei que ela seria aquele ser humano que considero raro, pela inteligência, meiguice, delicadeza, sensualidade, graça, sensibilidade, pela paz que transmitia ao meu coração. Ela tem os olhos mais singelos, mais puros que jamais conheci! Na sua maneira de conduzir todo aquele processo, na tentativa de recuperação da minha habilidade física e de se manifestar como ser humano, ela me tocou profundamente e me conquistou. Por isto, eu hoje estou meio que “viciado” em estar na sua presença. É isto. Eu estou sempre ansioso por ela. Ela tem sido meu refúgio, meu balsamo, minha paz, meu amor. Ela, sem querer, está me fazendo rever conclusões por mim antes consideradas já definitivas.

       Caro amigo, por causa dela, agora, eu sei o que é amor de verdade. Amigo, ela é a mulher que eu estava procurando por toda a vida e pensava que só existia nos meus sonhos. À medida que fui convivendo com ela, sem perceber, fui me apaixonando. Hoje, não consigo deixar de pensar nela. Amigo, estes momentos iniciais eram os mais difíceis para mim, por ter que me controlar diante dela e não deixar que ela percebesse o que acontecia em mim. Não sei se consegui isto alguma vez. Você sabe como são as mulheres. Sabe muito mais do que nós homens. Percebem coisas que nós não percebemos. São muito mais espertas, inteligentes e perspicazes. Mas como lhe disse, velho amigo, aquele dia era bem diferente dos outros. Ele reservava surpresas para este velho coração. Enquanto ela falava, eu não conseguia deixar de fitar os seus olhos negros e lindos. Eu dizia, no meu íntimo: como eu gosto desta mulher! Como ela me faz bem! Como é bom estar com ela aqui! Comecei a perceber que eu também a estava incomodando de alguma forma. Eu sofria um pouco, pois não sabia se estava sendo inconveniente. Por Deus, eu não queria isto! Ele é testemunha de que lutei comigo mesmo para conseguir o respeito e a amizade dela! Tinha quase certeza de que estava conseguindo isto. Estava convicto de que ela e eu teríamos um bom, amistoso e respeitoso relacionamento. Isto já seria motivo de grande felicidade para mim. Meu velho e querido amigo, Valter, sei que já lhe cansei com minha história, mas peço-lhe mais um pouco de paciência e sei que vou tê-la. Acho que já lhe contei que o Senhor Deus insiste em carregar este pecador. Por mais que eu seja infiel e me afaste dEle, o Senhor tem me desviado do caminho do mal e me dado tanto motivo para louvá-Lo! E ele me daria mais um. Veja, Valter, preste atenção ao que seu velho amigo lhe conta e que é verdade: estarei finalizando agora a narração desta experiência. Só um coração como o seu poderá compreender o que se passou com o meu. Muita coisa aconteceu naqueles trinta e poucos minutos entre ela e eu naquele pequeno compartimento. Como lhe contarei? Bem, tinha de chegar a hora de nos separarmos e isto aconteceu. Porém, só neste momento me dei conta de tudo que houvera acontecido. Eu estava em contido êxtase e tomei consciência de ter vivido nos últimos momentos uma grande e maravilhosa experiência. Tinha vivido um sonho, mas um sonho real. Claro que não saberei lhe contar tudo que aconteceu, mas, alguns momentos, depois, sozinho, concluí: nós namoramos, nós nos amamos. Nós nos amamos muito naquele pequeno espaço de tempo. Tudo que falamos e que fizemos, embora fossem ações de terapia, aconteceu magicamente, sublimemente, amorosamente, apaixonadamente. Nós nos deixamos conduzir pela maior força que pode fazer interagirem dois seres humanos: o amor. Houve forte interação, sem contato físico. Este relacionamento aconteceu como só acontece entre pessoas do bem, da luz, do amor, da simplicidade, da humildade, irracionais, de bom coração, da paz ... de Deus. Sei que nós nos encontraremos mais vezes. Como serão estes encontros, eu não sei. Também não posso lhe garantir que o que lhe conto não são apenas fantasias. A única certeza que tenho é que continuarei lutando para, de alguma forma, tê-la para sempre. Eu amo aquela mulher. Eu a amarei sempre. Ela estará comigo pela eternidade. Velho amigo, esta é a história que eu ansiava para lhe contar. Digo-lhe que sou hoje um homem completo. Tenho a vida, enquanto o Senhor permite. Tenho paz. Tenho você, meu grande amigo, a quem posso contar os devaneios, ilusões, desventuras do meu coração. Mas, sobretudo, posso contar as minhas venturas, como esta que acabei de narrar. Querido Valter, esta mulher linda existe e não está muito longe de mim. Ore a Deus por ela e por mim.

Seu sempre amigo,

Lucas

Obs: nomes fictícios

Pindorama, Na (Pré) Visão de Isaías

Ontem, junto com outros, fui a um barzinho comemorar o aniversário de quarenta anos do nosso amigo Jonas. É muito bom estar por perto das amizades verdadeiras. Tenho grande admiração pelo Jonas. Competente profissional, é amigo dos amigos e sempre boa companhia. Procura estar constantemente elegante, sabe se vestir bem e se manter com aparência jovial. Ontem usava calça jeans azul marinho, camisa gola polo laranja, sapato esportivo preto de cadarço e meias azuis, tudo da melhor marca. Em casa, antes de dormir, sem querer, me pus a refletir sobre algo que eu não havia pensado ainda: quarenta e um anos atrás, nada do Jonas existia. Daqui a 80 anos, certamente nada mais dele existirá, a não ser os elementos químicos que compõem o seu corpo físico. Estes, aprendi na escola, não mudam nem se desfazem jamais. Inferi que o Jonas pode escolher as roupas que vai usar e faz isto muito bem. Isto significa que Jonas é senhor da sua vida, no que tange ao vestir, ao comer, em onde passear, onde trabalhar. Mas o Jonas, pensei, não foi senhor da escolha da cor da sua pele, do tipo e cor dos cabelos, da estatura, tampouco se queria nascer homem ou mulher. Ele também não pôde escolher onde, de quem ou em que lugar deveria nascer Entendi que o meu amigo é senhor apenas de parte da sua vida, a parte menos importante. Indo adiante na minha elucubração, conclui que somos todos senhores de uma parte da nossa vida. Mas e da outra parte, quem ou o que é o senhor?

Confesso que fiquei assustado. Quem é este que é senhor da minha vinda pra este mundo e é senhor também da minha ida? Lembrei-me da minha mãe, há muito tempo falecida. Ouvi muitas vezes dela coisas do tipo: “filho é deus quem manda!”. Conclui, então que, para minha mãe, o senhor de tudo era o que ela chamou “deus”. Sim, ela sempre estivera convicta que era deus quem mandava em tudo. Minha mãe morreu cedo, então não tive tempo de discutir este assunto com ela. Que é deus? Quem é deus? Fui atrás da origem da palavra deus. Encontrei algumas pistas: “fonte”, “origem”, “chamar, invocar”, “aquilo que é” e mais alguns outros. O certo é que não consegui ver sentido em se usar a palavra deus em minúscula ou maiúscula, pelo simples motivo de que ela tem vários significados etimológicos, morfológicos e subjetivos. Em algumas falas ou escritos antigos ou recentes, vi a palavra sendo usada num sentido muito pessoal: “meu deus”. Deduzi que talvez haja um deus ou vários deuses para cada ser humano. Achei melhor desistir da palavra deus.

Volto ao meu amigo Jonas, no qual pensei muito antes de dormir, para dizer que me convenci de que há, sim, algo ou alguém que é senhor nosso. Ele mandou Jonas pra cá da forma que quis, não foi o Jonas que escolheu vir. Ele vai levar Jonas quando quiser. Não posso concluir que haja outro senhor que não este. Aceitei esta realidade. Nós todos temos um senhor que nos manda e nos requer de volta. Mas eu não estava satisfeito. Faltava saber se este senhor, que eu descobri analisando Jonas, era bom ou mau, confiável ou não. Pensei novamente em minha mãe. Eu gostava dela. Foi muito duro vê-la partir para sempre. Eu era garoto ainda. Eu confiava muito nela. Ela gostava muito de mim. Lembro-me agora de que me disseram: “Deus quis assim”. Eu pensei: tudo bem, mas por que este deus tinha que escolher pra levar logo minha mãe? Mas depois esqueci o assunto até este momento. Lembrei que minha mãe era cristã. Ela ia à Igreja. Tentou me levar, mas eu era meio rebelde. Não gostava de ver o padre falando. Nada me acrescentava, pensava eu. Aquele rito me cansava nas poucas vezes que fui.

Eu não conseguia dormir. Minha mãe parecia estar ali perto de mim naquele momento. Ela fora uma pessoa feliz, só foi ficando triste quando adoeceu. Pensei de novo no enigma da vida do meu amigo. Quem o trouxe para aqui? Quem o levará daqui? Lembrei-me do livro de mamãe: a Bíblia. Fui buscar uma Bíblia grandona que mamãe costumava deixar sobre a cômoda da sala. Ainda estava nas coisas dela que eu preservei por mais de vinte anos. Eu pouco sabia sobre aquele livro, então resolvi abrir em qualquer parte. Não custava nada mesmo. A página dizia ser do profeta Isaias, capítulo 8, 5-12. À medida que ia lendo o texto, percebia que eu compreendia e me identificava com o que o autor dizia. Fui ficando cada vez mais pasmado. Voltei ao início do texto. Uma nota dizia que talvez ele tivesse sido escrito no século VIII antes de Cristo. Isto foi a dois mil e oitocentos anos. Contudo, parecia que eu estava lendo um texto da minha década!

Ele dizia que se esvaziaria a autoridade dos homens e mulheres de poder, das Forças Armadas, do Judiciário, do Padre, da Freira, do Pastor, do Pai e da Mãe de Santo, do Médium. Os que falam a verdade, os que têm poder de prever as catástrofes, pela experiência e pelo estudo, o idoso e a idosa, estes não teriam autoridade. Também não seria mais respeitada a autoridade dos comandantes, empresários, homens e mulheres de bem, o que fala com eloquência e coerência.

As crianças serão obedecias como grande autoridade e governarão seus pais, vizinhos e até as autoridades. As crianças não respeitarão os anciãos e as anciãs. As pessoas não confiarão umas nas outras. Escrúpulo será palavra sem sentido e não se perceberá nobreza. Acontecerá o desgoverno e não haverá quem possa conduzir o povo. A “pátria amada, idolatrada” caminhará para a ruina. Tudo isto acontecerá porque o bom senso não estará prevalecendo. O sentimento de pertença à pátria estará num processo de desaparecimento das almas cidadãs, porque perceberão estar sendo governadas pelo engano e pelo engodo. Os jovens perdem a capacidade de sonhar e se embrenham no caminho das drogas ou de qualquer outro prazer. O hedonismo e o individualismo serão normas.

Dobro o livro e o coloco sobre o criado mudo. Reflito. Parece que Isaias fala do meu tempo, do meu país. Suspiro. Respiro fundo. Tento dormir, não consigo. Lembro me do noticiário: carros de luxo são retirados pela Justiça da casa de um senador da república porque teriam sido adquiridos com dinheiro surrupiado dos cofres públicos; há um esquema criminoso de poder que rouba o povo, tudo por culpa do governo da Terra de Santa Cruz. Parece que o estado e o governo não se dão ao respeito. Temendo pelo futuro da Terra de Pindorama, pego o livro de novo e continuo a leitura.

O bom senso virá, por bem ou por mal, diz o escritor, com outras palavras. O carro apertado é que canta, diz o ditado popular rural. Lembro me de que li em algum lugar que o ouro é provado é no fogo. Temos que ter esperança, confiança em nós mesmos e ver, julgar e agir. Quando isto acontecer será o juízo contra tudo que existe por força do mal. Quanto maior a altura, maior o tombo, enuncia o dito popular. Os reis e os príncipes ficarão nus.

Viajando pelo meu passado, me lembro de quantos subiram na vida à custa da opressão, da mentira e da deslealdade! Quantos conseguiram acumular riquezas à custa dos mais simples, ignorantes e que não tinham poder de barganha. Todavia, eu vi também estes, que subiram muito alto, de lá se despencarem, esborrachando se na desonra e no opróbio, envergonhando seus filhos e netos.

Após a minha reflexão, compreendi que talvez seja isto o senhor de tudo. O mundo foi criado para todos nós e todos fomos criados para usufruir do mundo e sobre ele termos responsabilidade. Somos também responsabilidade uns dos outros. Precisamos cuidar do mundo de nós mesmos fraternalmente. O Senhor, seja ele quem for, é senhor nosso. É necessário, pelo menos, reverenciá-lo, sob pena de infringirmos a lei da vida a qual é aceitar e fazer a vontade dEle.

O povo será violento, o jovem não respeitará o velho, nem o plebeu o homem honrado. Crianças oprimem. Os dirigentes enganam o povo e confundem a direção dos seus caminhos. (Isaias 3, 5 e 12).

Maria Rita

       Era manhã de domingo e eu caminhava pela Avenida Augusto de Lima, na capital mineira, praticando uma atividade muito prazerosa para mim. De passagem pela cidade, onde fui participar de um evento cultural, eu estava livre naquela manhã e decidi matar a saudade do tempo de jovem, quando eu morava, naquela mesma avenida da capital, tão querida por mim. Quando eu nela morava, nos fins da década de 1970, tirava as manhãs de domingo para caminhar pelas ruas cheias de vegetação bem cuidada pelos órgãos públicos. Saía da Rua Bahia, subia a Avenida João Pinheiro, passava pela Praça da Liberdade, onde parava um pouco para admirar uma obra de Oscar Niemeyer que existe por ali. Apreciava a bela praça, o conjunto arquitetônico que compõe o Palácio do Governo. Gostava muito de ficar assentado em um dos bancos da praça, a olhar o trafego, normalmente, bem menor que nos dias de semana. A combinação dos elementos: ruas com asfalto, sol, céu azul e límpido ou às vezes com uma ou outra nuvem branca, o verde das árvores e plantas rasteiras dos canteiros da frente das casas ou das sacadas dos edifícios, me fazia muito bem. A tudo isto, muitas vezes, juntava-se suave brisa matinal. Eu me sentia num paraíso. Após algum tempo, eu continuava a caminhada até à Assembleia Legislativa, parava diante do prédio, e ficava a imaginar o que teria sido discutido naquela casa na semana que passara. Depois tomava o rumo do centro da cidade, esticando a caminhada, pela Avenida Amazonas, passando pela Praça Raul Soares, até à rodoviária. Daí para casa, pela Avenida Afonso Pena. Nunca deixava de dar uma passada no Parque Municipal, para absorver o perfume das folhas e flores ali existentes.

       Naquele domingo, vinte anos depois, eu tentava repetir o trajeto. Não tinha a mesma disposição, mas tinha o mesmo prazer. Eu havia percorrido pouco mais da metade do trajeto, quando, já próximo à Praça Raul Soares, ouvi uma voz feminina me chamar atrás de mim. Olhei, mas não a reconheci. Quando ela chegou mais perto, percebi que era Maria Rita. Tinha um belo sorriso no rosto, quando me disse: quem é vivo, sempre aparece! Eu custara a acreditar que estava diante de uma pessoa que eu julgava nunca mais ver. Depois de um grande abraço, caminhamos juntos até à Praça e nos sentamos num dos bancos, onde havia sombra. Tanto ela quanto eu estávamos muito surpresos e felizes. Não me lembro quanto tempo ficamos na praça a relembrar nosso passado. Dalí fomos ao Shopping, passeamos um pouco. Quando percebemos, três horas tinham se passado e tivemos de nos despedir, não sem antes, trocarmos telefone e e-mail. Não vamos mais nos afastar, disse me ela. Não vamos, respondi. Trocamos longo e forte abraço e vi minha amiga desaparecer no meio da multidão que trançava de um lado para o outro, dentro do estabelecimento.

       Sozinho, depois, me assentei em um dos bancos da praça de alimentação do Shopping. Um atendente se apresentou e eu pedi uma garrafa de água. Na verdade, o encontro com Maria Rita, ao tempo em que me deixara feliz, me provocara reflexões. O que nós fazemos com nossas amizades? Por que deixamos escapar as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós? Pus, então a me recordar da última vez em que Maria Rita e eu nos encontramos, havia tanto tempo. Naquele dia eu acabara de chegar à rodoviária de Divinópolis. Eram onze horas da manhã. Desci do ônibus, procedente de Belo Horizonte. Eu tinha iniciado longa viagem às quinze horas do dia anterior, da cidade de Itamarandiba, município que situa-se no Alto Vale do Jequitinhonha. Estava maravilhado com o que houvera visto. O município estende-se sobre os domínios do bioma Mata Atlântica, a leste, e Cerrado, com um relevo marcado pelas grandes chapadas e pela Serra do Espinhaço.  Recém formado Técnico Agropecuário, eu fora chamado por uma grande empresa de reflorestamento, para trabalho. Visitei os campos e, apesar de ter apreciado o lugar e trabalho, recusei. Eu queria cursar uma Faculdade, a pequena cidade não oferecia esta possibilidade. Preferi, então, morar na capital. Viajando de ônibus, eu chegara à capital mineira quase meia noite. Tinha dinheiro no bolso apenas para pagar a passagem para minha cidade e mais uma moeda, valor de uma passagem de coletivo e uma ficha telefônica. Eu tentaria encontrar meu amigo. Ele trabalhava, em noites alternadas no pronto socorro do Hospital, como assistente de enfermagem. Inseri uma ficha no orelhão e aguardei ansioso a voz do outro lado. Alô! A voz conhecida me aliviou. Meu amigo providenciou para que eu matasse a fome de quase nove horas.

De manhã viajei pra Divinópolis, desci do ônibus e me dirigia ao guichê para comprar a passagem para Perdigão, minha cidade, quando ouvi uma voz feminina a me chamar pelo nome. Voltei-me e deparei-me com Maria Rita. Era uma amiga dos tempos de criança. Morávamos agora em cidades diferentes, cada um tentando cuidar do seu futuro. Nós nos aproximamos e, quando a abracei, percebei que seus olhos estão marejados de lágrimas. Estava abatida e triste. Seus olhos, que eu tanto conhecia, haviam perdido o brilho. Ela permaneceu abraçada comigo por alguns instantes. Percebi o quanto estava sofrendo. Quando se afastou um pouco, fitei seus olhos e lhe perguntei o que se passava. Há um mês, perdi minha avó, respondeu-me. Sua avó era quem a tinha criado, pois, a mãe ela tinha perdido quando criança. Meu Deus – pensei – minha amiga está sofrendo muito! Eu sabia muito bem o que ela estava sentindo, pois eu tivera vivido a mesma situação, havia pouco mais de três anos, quando minha mãe falecera. Eu estava já com muita fome, não tinha dinheiro para um lanche, mas fiquei ao lado dela, que, aos poucos, foi mudando o estado de espírito. Entre caminhadas e paradas, ficamos cerca de quatro horas juntos. A fome fazia doer meu estômago, mas eu não tive coragem de chegar até à casa de minha amiga e pedir algo para comer. Coisa de jovem tímido. Eu não tinha nada a oferecer àquela minha irmã em Cristo, a não ser a minha companhia até à sua casa. Quando a deixei, próxima à sua casa, ela estava bem melhor. A vida me levou para uma cidade distante. Nunca mais nos vimos, até aquele domingo, por acaso, em Belo Horizonte. Contudo, meu pai sempre me falou dela e do quanto ela era grata a mim por aquele dia. Mandou-me muitos recados, através dele! Mandava dizer sempre que nunca se esquecia de mim. Que bom – eu pensava. Eu concluí que fazer o bem faz bem ao nosso espírito e à nossa alma. Não esperava mais ver Maria Rita. Contudo, naquela bela manhã de domingo, distante mil quilômetros da minha casa, eu pude rever Maria Rita e gozar da sua amizade, consideração e gratidão. Uma amizade que será eterna.

Decepção Virtual

Já se tinha ido mais da metade da noite e eu estava só em meu apartamento. Eu havia acabado de sair do banho, estava limpo e perfumado. A solidão é ruim, não me acostumo com ela. É difícil ficar em casa, só, mudo, ou mesmo dialogando com a televisão. O dia de trabalho fora intenso. Raiva, tensões, ingratidão, frustração, às vezes algum sucesso. Estou a sentir um aperto no peito, uma tristeza familiar ameaça chegar. Tenho que evitar isto, preciso falar com alguém que me ajude a distrair. Pego o telefone celular, corro os olhos pela lista de contatos. Concluo que nenhum daqueles nomes estaria disponível naquela hora da noite. Ligo meu computador, começo a navegar pela internet. Vejo minha caixa postal, a maioria é spam, os demais não me despertam interesse. Lembro-me dos sites de relacionamentos. Entro em um e em outro, não consigo achar nada nem ninguém interessante. Ah! Sim! Tem um interessante. Conheço umas pessoas lá. Clico no ícone deste site, abre-se uma tela cheia de opções. Vejo fotos, juntamente com textos indicando o perfil daquelas mulheres e homens, todos em busca de companhia ou de uma conversa. Ponho me a pensar em tantas pessoas que vivem só. São solteiros, viúvos, divorciados. O medo das ruas à noite, impede muitos de buscarem um barzinho, uma casa noturna qualquer ou mesmo visitar uma amigo. Estes preferem ficar em casa e recorrer à grande rede. Também eu estou nesta busca de companhia.  Por isto, apelo para a internet. Pelo menos ali existe a possibilidade de alguém responder a uma chamada, mesmo que não venha dar em nada posteriormente - penso. Todos querem alguém para conversar sobre qualquer assunto. Alguns querem algo mais íntimo, mais intenso. Eu desejo uma companhia feminina. Mesmo que seja apenas para trocar algumas palavras. Quem sabe falar de trabalho, de filhos, do mundo, de religião, do que quer que for!  Olho os rostos, um a um. De alguns rostos eu gosto. Digito “boa noite!” Logo vem de volta um “boa noite!” E segue o diálogo: tudo bem? De onde você é? Solteira? Esta é uma rotina de quase todas as noites e que termina com um melancólico “boa noite!”, após alguns minutos de conversa. Hoje, porém, uma das mulheres, a mais bonita, deu-me o prazer de um bom papo. Falamos de literatura, música, religião, política, economia. Falamos de assuntos pessoais: amor, carinho, afeto, sexo. Aprofundamos assuntos sobre nossas profissões, nossos sonhos e anseios. Ela me disse que, como eu, sentia-se, às vezes, só. Ela desejava muito uma pessoa carinhosa e protetora ao seu lado. Falamos da possibilidade de nos encontrar, concretizar um bom, respeitoso e amistoso relacionamento. Tamanha simpatia merecia uma excelente resposta da minha parte. Estava ali alguém deveras interessante, eu estava me convencendo disto. Meu coração fora inteiramente conquistado. Ela disse aceitar trocar muitos dados pessoais entre nós e, naturalmente, ficara convencionado que eu forneceria os meus primeiramente. Eu já ia me abrir com relação a informações pessoais e, assim, demonstrar merecer a confiança daquela mulher. Entretanto, num instante, mudei de ideia. A prudência trabalha em minha mente e eu comecei a, mentalmente, me perguntar: será que aquelas pessoas todas, cujos rostos aparecem naquela plataforma, são verdadeiras? Existe alguém, de verdade, em carne e osso, por traz daquelas fotos? Não será tudo simulação? A razão falou mais alto em minha mente e eu me pus a me perguntar: que garantias eu tinha de que aquela pessoa com quem eu estava me relacionando era do bem? Não poderia ser ela alguém preparada para me fazer mal? Aquele belo rosto não escondia atrás de si a maldade? Enquanto eu pensava tudo isto, continuei a teclar com ela, nada deixando transparecer e, assim, continuamos a simpática conversa. Aos poucos, sutilmente, fui tentando desvendar algum segredo que pudesse existir. Agucei meus sentidos, apliquei toda perspicácia possível, usei de astúcia, mas, apesar das minhas tentativas, eu percebia que ela, naturalmente, interagia comigo, cuidando para que nada me parecesse suspeito. Eu agora estava bastante desconfiado das intenções daquela pessoa. Dei, então, mostras claras de que eu era alguém que prestava muita atenção nos meus amigos virtuais. Recebi um elogio. Por fim, declarando-me muito interessado nela, pela beleza, simpatia e outros atrativos, pedi o seu endereço eletrônico e seu telefone. Ela foi delicada e atenciosa, mas não me atendeu. Indaguei sobre dados concretos da sua pessoa ou trabalho. Dali pra adiante, nossa conversa não progrediu mais. Na verdade, ela foi me deixando, como fumaça que se esvai pela ação do vento. Quando dei por mim, vi que ela tinha saído do sistema. Eu estava falando sozinho. A conversa terminou. A solidão continuou. 

Uma Questão de Persuasão

Eu já tinha cinco anos e continuava gostando de mamar Bico ou Chupeta, como dizemos hoje, apesar dos insistentes apelos de minha mãe, para que eu deixasse disto. A pobre mulher já não sabia mais o que fazer. Havia cansado de fazer o que muitas pessoas aconselhavam, ou seja, passar algo de sabor amargo ou ardente e nada resolvia, pois eu tinha sempre a disposição de lavar tudo e, pacientemente, retomar minha chupeta. Ela argumentava que “menino que mamava Bico não crescia inteligente e que, nenhuma moça se interessaria por mim, pois eu teria os dentes puxados pra frente. Eu seria considerado um menino bobo e ninguém me daria crédito”. Mas nada disto adiantava, eu não trocaria meu Bico por nada. Minha mãe desistiu, aparentemente. Eu nunca levara a sério estas conversas dela porque eu não conseguia me imaginar sem o meu Bico. Era ele que me fazia esquecer o tédio que era aquela casa silenciosa, numa rua e cidade silenciosas, de segunda feira a domingo. O silêncio só não era pior porque ouvia-se o som do maquinário de uma pequena beneficiadora de arroz ao longe, que mais parecia um lamento no decorrer dos dias. Mamãe se punha a costurar num pequeno quarto, ao lado da sala, e, às vezes, entoava um canto que contava alguma estória extraordinária que se passara naquelas campanhas. Ela tinha predileção por canções que falavam de amor e solidariedade, tão necessários naquelas terras de precárias condições de vida para o ser humano. Vez por outra, um som diferente quebrava a monotonia. Era o barulho da pequena Roca, na qual minha mãe punha-se a fiar. Antes ela pegava o algodão colhido no quintal, depurava o da sujeira, usando objetos que ela chamava de Caldas, que eram duas tabuinhas cheias de pontas de arame e com cabo. Colocava entre elas pequeno fardo de algodão e, esfregando uma na outra, transformava aquilo em um canudo muito branco e limpo. Os canudos eram ligados às engrenagens da Roca e, com habilidade, usando as duas mãos para controlar o material e os pés para tocar a Roca, mamãe os transformava em cordões que eram enrolados e guardados para deles se fazerem colchas que usávamos para, nos cobrir em noites frias. Mamãe tinha habilidade também para, a partir de pequenos retalhos de tecidos, confeccionar bela colchas. Este trabalho de minha mãe tinha minha admiração, principalmente porque quebrava a monotonia. Era muito bom quando ela terminava e mostrava-nos o trabalho de suas mãos.  Meu pai, eu só o via à noite e ele, às vezes, dormia no trabalho. Contudo, no domingo, ele estava sempre por perto. Ele se levantava cedo, ia à missa. Depois se dedicava a algum trabalho manual. Ele tinha sempre uma rocinha precisando ser cuidada ou uma cerca precisando de reparos. Quando estava livre ele cortava bambus verticalmente em quatro partes e fazia cestos, balaios, peneiras, muito úteis no dia a dia de nossa casa.

Voltando ao assunto com o qual iniciei este texto, minha mãe tentava, por tudo, me convencer a deixar a chupeta, sem nenhum sucesso. Foi aí que entrou em cena outro personagem: meu irmão mais velho. O pirralho, com apenas oito anos, se revelou um excelente estrategista e bolou um plano, junto com mamãe, para fazer me deixar, de vez, o Bico. Como eu disse antes, tudo ali e nas redondezas, salvo raros momentos, era silêncio. Em minha rua, raramente passava um automóvel. Um belo dia, por volta das quatorze horas, ouvi o som que pareceu do motor de um Ford 1929, popular Furreca, que se aproximava. Percebi que o veículo parou próximo à minha casa, por não mais do que meio minuto, depois se foi, voltando a prevalecer o monótono e melancólico silêncio de sempre. De repente, meu irmão, pentelho, chegou pra minha mãe, que costurava no quarto, ao lado da sala onde eu brincava e, meio esbaforido, disse a ela insistentemente:

- Mãe, esconde o Tonho! ... esconde o Tonho!

Tonho era eu. Tratei de escutar a conversa sem deixá-los perceber e ele continuava pedindo a mamãe que me escondesse.

- Por que eu haveria de esconder seu irmão, meu filho?

- Mãe – respondeu meu irmão – parou um carro ali na rua agora, só por um instante e nele havia dois homens fortes que me chamaram e me perguntaram:

- Ei, menino, venha cá! Você conhece, nesta rua, algum menino que mama Bico?

Eu me lembrei do Tonho, mas pressenti algo e falei que não conhecia. Então, o homem mais medonho me disse que estavam procurando meninos que mamam Bico para capá-los todos e que se eu soubesse de algum era pra contar imediatamente para eles que voltarão amanhã.

Meu irmão parecia tremer e dizia:

- Por favor, mãe, esconde o Tonho!

Mas, minha mãe respondeu secamente:

- Ah, filho, eu não vou escondê-lo não. Já cansei de falar pra ele deixar o Bico e ele não me ouve. Deixa ele pra lá!

E assim terminou a conversa entre os dois, que eu fingi não ter ouvido. Deixei passar alguns minutos, para que não percebessem que eu tinha ouvido tudo. Então, procurei minha mãe:

- Mamãe, toma o meu Bico, não o quero mais.

Minha mãe, “toda consternada” me indagou:

- O que é isto, meu filho? Você está entregando algo de que gosta tanto?

- Mas, mamãe – disse eu, com ar de pessoa decidida – resolvi que não quero mais e pronto.

E entreguei o objeto a ela.

Torcedor de Futebol

Em 1966, eu tinha 11 anos e gostava muito de jogar bola na rua e de, no domingo, ir ao campo ver o jogo dos adultos. Num domingo, por acaso, um grupo de jovens estava ouvindo, num radio de pilhas, um jogo entre Cruzeiro e Atlético. Parte torcia pra um, parte torcia pra outro. Como o grupo cruzeirense era mais simpático, virei cruzeirense. Quando já era adolescente, o Brasil ganhou a copa do México e eu me senti orgulhoso de ser brasileiro. O ufanismo apregoado pela maior parte da imprensa, para agradar ao governo, me engabelou e eu, bobo, passei a pensar que ser campeão de futebol era muita coisa. Assim, incapaz de reagir a este vício, por cinco décadas, eu, sofro todo ano, no campeonato nacional e, de 4 em 4 anos, na copa do mundo. Estamos indo para a décima terceira. Estou, agora aprendendo e, quando o Brasil não se classificar nas eliminatórias, vou estar nem aí. Se você ama seu filho, sua filha, não deixe que embarquem nesta roubada. Futebol é maravilha como esporte, mas o que fazem é viciar nossas crianças nos jogos na TV e nos programas esportivos. Nos intervalos, tomem comerciais de bebida alcoólica e outras porcarias! Até muito pouco tempo tinha propaganda de cigarros. Querem nos diante da TV tomando cerveja. E eles enchendo as burras de dinheiro. Veja que, nos canais abertos, que detêm os direitos de transmissão, os narradores tentam seduzir o telespectador durante toda a transmissão, mesmo que o espetáculo esteja muito ruim. Nos canais por assinatura, a narração é mais sóbria. A copa do mundo é apenas uma festa, um congraçamento entre os povos, não é apuração do melhor do mundo. Não estarão nela as melhores seleções. Na Copa no Brasil, ficaram fora, na minha opinião, só da Europa, pelo menos onze seleções dos níveis das melhores. Sérvia, Bulgária, Romênia, Hungria, Turquia, Polônia, Suécia, Escócia, República Tcheca, Áustria, Dinamarca. Pra que sofrer, então? O Brasil é o país mais vezes campeão, porque participou mais vezes.

Olivia


1 - A TESTEMUNHA

Em algum lugar do estado de Minas Gerais, em 2013

 

         Sou Afonso, um afortunado. Mês passado completei noventa e quatro anos. A saúde não é lá estas coisas, mas me permite fazer muito ainda. Tenho um amigo: o “Chatinho”. Não que ele seja chato, eu já o ganhei com este nome, quando ele tinha seis anos, era quase um senhor, no mundo canino. Não é pequeno nem grande. Seu pelo é espesso e negro, na cabeça e parte superior do corpo; o resto amarronzado. Duas pequeninas manchas marrons sobre os olhos fazem-no ser chamado “quatro olho”. Isto mesmo. “Olho”, no singular. Dizem que tem sangue de antepassados romanos de pastoreio e guarda. Chatinho é de temperamento amistoso e feliz. Apegado a mim, desconfia de estranhos. Bom pra dar alarme, dificilmente, toma atitude agressiva. Atencioso e impetuoso, nunca mordeu ninguém. Não gosta de água, mas, vez por outra, dou-lhe um banho. De vez em quando, some por algumas horas, mas sempre volta. 
        Tive Teresa que me deixou há treze anos. Eu queria que ela tivesse vivido mais. Foram pouco mais de setenta anos, cinquenta a meu lado. Todo domingo vou lá onde ela está para visitá-la e rezar por ela. Acho que sua alma, onde estiver, faz isto por mim também, a gente nunca sabe como são estas coisas! Sinto falta dela. Era um pouco geniosa, mas conseguiu ser minha companheira por tantos anos! Não posso tirar-lhe este mérito. Eu sempre me senti forte, apesar de algumas mazelas, desde novo, mas, hoje percebo mais claramente o quanto a companhia de Teresa me fortaleceu. Mulher é “bicho” forte mesmo, viu? É a alma do lar. 
        Meus filhos moram longe. São seis. Estão todos bem, os netos estão todos em bons empregos, os bisnetos, crescendo. Não vejo ninguém deles há meses. Eu os entreguei a Deus e penso que Ele está cuidando direitinho deles. Chatinho e eu moramos numa pequena casa, numa rua inclinada, um morro que dá acesso ao centro da pequena cidade. É lá no alto que tem igreja, farmácia, loja de roupas, açougue, vendas e uma pracinha, onde os jovens passeiam à noite. Não deixo de subir lá todo dia. Vou à igreja, converso com uma pessoa ou outra. As pernas doem, mas não posso me entregar. 
        Tenho um pequeno quintal onde cultivo hortaliças, ervas de tempero e plantas medicinais para agradar meus vizinhos, pois, para mim, felicidade é ter amigos. Todos os dias vem alguém aqui para buscar alguma folha ou raiz. Nestes tempos, fala-se muito da importância dos alimentos vegetais bem cultivados. Por isto, não aplico venenos para tratar pragas e doenças, tento usar algum inimigo natural.  
        Esta região é chamada Centro Oeste de Minas Gerais. Muitas cidades se formaram aqui. A maior é Divinópolis. Andei por muitas delas. Morei em Coqueiros, Cercado, Saúde e, por fim, Teresa resolveu que ficaríamos aqui.
         Outro dia, conversando com o Chatinho – ele não fala, mas ouve bem – andei relembrando muitos fatos que testemunhei nesta minha longa vida. O Chatinho gosta de, à tardezinha, vir se deitar perto do fogão. Ele sabe que, dali a pouco, vou comer algo e dividir com ele. Antes, porém, eu conto a ele coisas relevantes que aconteceram no dia, no mundo dos humanos, ou algum fato do passado. Ele fica bem atento. Talvez o Chatinho não seja um simples cachorro, mas um anjo. Ele parece ser mais evoluído do que eu. Senão, como viveria sem saber falar? Ele não se irrita, nem perde a paciência comigo. Por menos que eu faça por ele, sempre lambe minhas mãos e meus pés e abana o rabo quando eu chego em casa. Voltando à nossa conversa de outro dia, o Chatinho pareceu sugerir-me que eu devia contar histórias que guardo comigo. Contar pra quem? – pensei – ninguém ouve os velhos, hoje em dia. Ele me olhou como a dizer: escreve! Escrevo muito mal - argumentei - mas ele não pareceu satisfeito. Eu disse a ele que já contei histórias para algumas pessoas, no passado. Não adiantou. Ele fez cara de que não estava convencido. Então, para agradá-lo, fiz-lhe um lanche melhor do que nos outros dias. A noite caiu e eu fui dormir, deixando o Chatinho ali meio emburrado. Contudo, eu não dormi bem naquela noite. Nos dias que se seguiram, comecei a perceber algo diferente no olhar do meu amigo. Ele se deitava com a barriga no chão e deixava a cabeça sobre as patas dianteiras esticadas para frente. Parecia olhar-me com ternura e amizade, querendo me encorajar a escrever. Olhei pra ele e disse: você venceu seu cão chantagista! Tomei lápis e papel. Não devia satisfação ao Chatinho, mas a mim mesmo. Além disto, as palavras já estavam mesmo se derramando do meu ser. Fazia-se necessário apenas transportá-las para o papel. Confesso, nunca foi hábito meu ler ou escrever. Leio apenas o pequeno manual dos Congregados Marianos, que o padre me deu, uma pequena cartilha de São José, devoto que sou deste Santo e corro os olhos pela Bíblia. Acabo achando muita coisa boa. Escrevo alguma cartinha aos filhos e é só. Gosto mesmo é de ouvir rádio e ver televisão. Mas, não querendo arriscar a perder a amizade do Chatinho, comecei a botar no papel o que latejava na minha mente. Comecei a escrever buscando as palavras no fundo do meu coração, amparado pela memória que, graças a Deus ainda tenho. Meu amigo deitou-se aos meus pés como para dizer: estou aqui, vá em frente. Se alguém se animou a ler isto, já vou dizendo que não há como contar história sem narrar fatos tristes e alegres, pois assim é a vida. Ela, em si mesma, traz sofrimento e provações. Naturalmente, tendemos a não apreciar estas situações. Contudo, sem elas, é quase impossível se tornar forte. E a fortaleza pessoal é um dos elementos essenciais para uma vida feliz. Quando vivemos situações de contrariedade, abala-se nosso entusiasmo infantil, romântico e descompromissado. Mas aí é que aprendemos que a fé na vida é compromisso que exige sérias transformações na pessoa e no contexto social em que ela vive. Começo referindo a um tempo um pouco distante. 

Há pessoas que passam por nossa vida para cumprir uma missão. Umas nos ajudam, outras nos atrapalham. Há porém, aquelas que chegam e ficam como bálsamo para o nosso coração, às vezes, aflito.

2 – A VIDA POR UM FIO

Povoado de Coqueiros, município de Divinópolis (MG), 1935.

 

- Quando foi que ela piorou?
- Ao anoitecer de ontem
- Francisco?
- Deverá estar aqui até às onze horas.
- Não será tarde?
- Rezemos para que não.
- O médico já não a havia desenganado?
- Sim, mas Francisco quis ir, mesmo assim.
- Onde está a menina?
- Colhendo ramos de alecrim para varrer os terreiros.
- Pobrezinha, será que imagina o que a espera?
- Sabe sim, embora finja que não. É muito esperta.
- Ela adora a mãe.
- Sim, vai ser muito difícil pra ela.
- Só tem oito anos! O que vai ser desta menina?
- É muito querida, certamente cuidarão. Principalmente o Frâncio a quem ela é mais apegada.
- Ainda bem que são bons estes meninos!
- Sim, até o menorzinho já está acostumado a trabalhar!
- E Olívia já cozinha e arruma a casa.
- Deus sabe o que faz!
- Que Deus cuide desta família!
- Sim. A Virgem Maria os protegerá!
- Amém!
         Efigênia sentira-se aliviada com a chegada de Izabel. Estava muito cansada, pois tinha passado parte da noite ao lado de Rosa, sua vizinha moribunda. Eram quatro horas da manhã quando ouviu, do lado de fora da casa, a voz de Francisco. Montado num cavalo, chamou por ela, pedindo que fizesse companhia à esposa enquanto ele iria à cidade tentar falar com o médico. 
- Não quero acordar os meninos – dizia – pois eles têm que ir cedo para terminar de bater o feijão, pois o Seu Lourenço está vindo com o carro de boi para buscar a sua parte. E a senhora sabe como ele é sistemático! Temo que ele possa não querer mais me dar parceria se eu faltar com ele! A Olívia insiste em cuidar da mãe, mas é muito pequena e eu fico com cuidado nas duas. Além disto, a Rosa confia tanto na senhora!
- Vá com Deus, Francisco, eu tomo conta da Rosa. Chamarei a Izabel para me ajudar, se for preciso.
- Deus lhe pague, Efigênia!
- Amém!
         Foram difíceis aquelas horas para Efigênia. A amiga doente não tinha forças para nada, não se alimentava, a pele estava sobre os ossos. Efigênia lembrou-se dos tempos em que Rosa tinha saúde. Elas se ajuntavam com outras mulheres para ajudar os maridos na preparação das terras, nos plantios, cultivos e colheitas. Lamentavam ter que entregar metade da produção ao dono da terra. Elas achavam injusto. Julgavam ser o ideal uns vinte ou trinta por cento. Mas cumpriam o combinado sem reclamar e agradeciam a Deus por tudo. Lembrou-se de como Rosa gostava de cantar. Ela até inventava canções. Elas riam muito junto com a família. Agora estava vendo a amiga estendida no seu leito... morrendo.
- Pobre Rosa, pensou. Será que, quando partir, você poderá interceder por nós?
Viu a amiga movimentar a mão devagar a pedir água. Efigênia levantou a cabeça da doente e levou-lhe a pequena caneca de esmalte branco à boca. Ela conseguiu beber um pouquinho e acenou para que Efigênia a deitasse novamente. Em um instante, Rosa estava novamente estendida, inerte, sem forças. Efigênia rezou uma Ave Maria e outra e outra. Depois tirou do pequeno bolso da blusa um terço e começou a rezar, sussurrando. Observou que a doente percebera e tentava rezar também. Sentada em um banco de madeira ao lado do cama, mirava, pendurado na parede de pau a pique, rebocada com massa feita de saibro e estrume bovino, um pequeno crucifixo de madeira e um quadro com a estampa de São Geraldo. Sobre uma pequena mesa rústica, feita por Francisco, uma imagem da Virgem negra de Aparecida, tendo sobre si um pequeno terço e ao lado a lamparina a querosene, cuja chama amarela dançava, parecendo querer se desprender do bico da lamparina, sem sucesso. No teto, vigotas e ripas de assa-peixe cobertas por telhas francesas, separavam as duas mulheres do firmamento. Viu pelas frestas da janela de madeira, o começo do raiar do dia. Levantou-se, apagou a lamparina e voltou a sentar-se no banco de madeira. Voltou a rezar. A cada Ave Maria rezada, ia mudando entre os dedos as bolinhas do rosário feito de sementes de Contas de Lágrimas, planta que crescia na beira dos córregos. Rezou o primeiro mistério, o segundo mistério ...
Efigênia acordou com leve batida na porta de madeira do quarto. Ouviu a mansa voz da menina Olivia:
- Desculpe dona Efigênia, não pretendia assustá-la! 
Olhou rapidamente para a doente e tranquilizou-se, pois ela dormia, respirando suavemente. Viu nela apenas um fio de vida.
- Oi Olívia, acabei passando por uma madorna!
- Os meninos já estão se levantando. Fiz café. Venha tomar um gole com a gente, a senhora deve estar muito cansada.
- Vou sim, Olívia, seu café é muito gostoso.
- Como ela passou?
- Está muito quietinha. Vamos deixá-la descansar, né?
         Na cozinha, havia um fogão de lenha barreado com argila branca, cuja trempe era uma chapa de ferro fundido com quatro grandes orifícios onde se assentavam as panelas de ferro para o cozimento dos alimentos. Um destes orifícios estava ocupado com uma panela lambida pelas chamas produzidas por madeira seca que queimava embaixo dela. O odor do feijão a cozinhar era agradável ao olfato de Efigênia. Era hábito das famílias iniciarem o cozimento do feijão bem cedo, devido a esta leguminosa ser de cozimento demorado. Junto com o arroz, batata doce, mandioca, milho, legumes, verduras, ovos e carne de frango, o feijão formava a base da culinária naquela região. Uma prateleira de madeira rústica abrigava latas que outrora contiveram banha, doces ou quaisquer outros alimentos industrializados, que de tanto serem lavadas, brilhavam como alumínio polido. Para isto, usava-se a bucha vegetal, fruto de uma planta trepadeira muito comum por ali, com sabão misturado com areia fina. Cada tábua da prateleira era coberta por um forro de tecido branco com pequenos bordados de estampas de flores feitos por Rosa. Efigênia sabia, por experiência em sua própria casa, que a maior parte de tais produtos não havia sido consumida por aquela família. Eram embalagens obtidas de famílias mais abastadas, após ter sido consumido o conteúdo. Trabalhadas, serviam de utensílios domésticos. Numa pequenina mesa rústica, encostada na parede, forrada com tecido branco embainhado por linhas douradas, estava um pequeno bule esmaltado. O café, tomavam-no em pequenas canecas esmaltadas ou em pequeninas latas de extrato de tomate reutilizadas, nas quais Francisco, habilmente, implantava pequenas asas, afixadas com rebites, tudo de folhas de lata. Mas, apesar da simplicidade, a cozinha se mostrava luxuosa pela limpeza de tudo. Rosa, muito zelosa, fazia tudo com muito capricho e ensinou tudo aos filhos. No pequeno terreiro da cozinha, alguns poucos pés de cana de açúcar, adiante algumas touceiras de bananas, muitas outras plantas. Logo após o pequeno córrego, havia um pequeno cafezal. Por ali passeavam algumas galinhas. Podia-se sentir um suave cheiro de manjericão vindo da beira do córrego. Efigênia deitou um pouco de café numa das canecas e bebia quando percebeu que um dos meninos abrira a porta da frente da casa para a entrada de Izabel que se encaminhou diretamente para o quarto de Rosa. Izabel pousou a mão sobre a fronte de Rosa. Uma pequena lágrima saiu dos olhos da visitante. Viu, pela janela, os rapazinhos saindo calçados de botinas de couro de boi, calças e camisas de algodão feitas de tecido que Rosa fiara em sua roca. Na cabeça, chapéus de palha. Iam para o trabalho, portando uma enxada, um rastelo, varas finas, uma vassoura e duas peneiras de treliças de bambu. Izabel fechou os olhos por um instante e fazia uma prece pela amiga doente. Sentiu a mão de Efigênia que, delicadamente, a puxava para a sala para conversarem um pouco. As duas mulheres se abraçaram e choraram juntas, após confirmarem a ausência das crianças. Com a chegada de Izabel, Efigênia iria pra casa cuidar do almoço, uma vez que o marido, a este momento, já estava na lavoura. Despediu-se da amiga, lançou um último olhar na direção do quarto de Rosa e deixou a casa.

3 – VIDA POR UM SOPRO

Coqueiros, tudo é efêmero.

 

         Já se aproximavam as nove horas da manhã, o sol surgira havia pouco, pois aquele lugar era cercado de serras, que impediam o astro rei de se manifestar mais cedo. Por isto, fazia um pouco de frio. Efigênia percorria os duzentos e poucos metros de caminho batido entre a casa de Rosa e a sua casa. Assustou-se, ao ver sair, de repente, em disparada, de debaixo do capinzal à sua esquerda, um teiú, que atravessou a estrada, entrando no capinzal do outro lado, que ia dar no ribeirão, logo abaixo. O teiú, também chamado de “lagartão”, habitava, em grande quantidade, aqueles campos de cerrados e gostava muito de atacar os galinheiros para devorar ovos frescos, causando, além de prejuízo material, grande decepção às senhoras, quando ali se dirigiam para colher ovos. O bicho media quase um metro de comprimento total. A mulher o via muitas vezes, durante o dia, quase sempre em tocas próximas à água, em terra firme. Ela sabia que, além de ovos, o teiú, gostava de frutos, folhas verdes, insetos, pequenas aves, lagartos e roedores. Era comum encontrar ovos de teiú sendo chocados em formigueiros e cupinzeiros, aproveitando seu calor. Ele era um grande adversário das donas de casa. Porém, sua carne era apreciada por muitos. Efigênia esboçou um sorriso, pois se lembrou de que apelidara Joaquim, seu marido, de “teiú”, por causa de seu apetite por ovos cozidos. O homem comia, pelo menos, dois ovos, todos os dias e, não raro, os pegava escondido da esposa. Daí o apelido de teiú. O réptil a fizera esquecer por instantes a tristeza pela doença da amiga querida. Efigênia parou, pondo-se a arrancar molhos de “capim gordura”, abundante por ali. Esta gramínea era usada para lavar talheres, pois soltava uma espuma que ajudava a limpar a gordura, substituindo o sabão. Recolhe também alguns galhos secos, quebra-os, ajuntando-os. Um pedaço de cipó fino, retirado do caule de uma pindaíba, é utilizado, por ela, para fazer um pequeno feixe de lenha, no qual são incluídos os molhes de capim gordura. A mulher ainda colhe folhas de bugre, planta rasteira muito comum no lugar. Com estas folhas, fez uma rodilha para colocar entre a cabeça e o feixe de lenha. As folhas de bugre eram muito utilizadas para fazer chás matinais para toda a família, pois, bem adoçados, eram muito apreciados por todos, além de ser - acreditava-se - um excelente depurativo do sangue. A mulher coloca o feixe de lenha, de pé, sobre um pequeno barranco, acomoda a rodilha sobre a cabeça e em seguida, o feixe sobre a rodilha e reinicia a caminhada rumo à sua casa. Enquanto caminhava, ia imaginando o que aconteceria nos próximos dias. Rosa, doente havia meses, apenas aguardava o momento de partir. Ela tinha a solidariedade de algumas vizinhas que a assistiam dando banho, medicação e algum alimento que pudesse ingerir. Efigênia pensava na família de Rosa. Seu marido Francisco, era lavrador, que ganhava a vida plantando em terra alheia, à meia ou à terça parte. Moravam, de favor, numa casa de quatro cômodos de um de seus patrões, com os cinco filhos: José, de 16 anos, Gabriel, de 14 anos, Adão de 13 anos, Frâncio de 11 anos e Olívia de 8 anos. Rosa adoecera gravemente havia uns quatro meses e fora piorando, até que o médico recomendou que ficasse em casa para morrer com dignidade. A visita a um médico era muito difícil. A sede do município ficava cerca de duas horas de viagem a cavalo, sendo a carroça, o veículo mais rápido que se podia contar. O carro de bois, um veículo talvez mais apropriado para se transportar um doente, demorava mais tempo ainda. Na cidade havia um médico que atendia aos pacientes, cobrando o que pudessem pagar ou, às vezes, nada cobrando. E era este médico, o doutor Sebastião, que Francisco tinha ido tentar consultar e, quem sabe, trazer para dar uma última olhada na esposa moribunda. Efigênia pensou com muito afeto em Olívia. A pequena era esperta, tinha muita energia, não abandonava a mãe por nada e causava a todos a impressão de que esperava a cura. Efigênia, entretanto, não via assim. Conhecia bem a menina. Ela era intuitiva, sagaz e parecia adivinhar as coisas. Dizia: “meu coração me conta as coisas”. Tinha uma alma religiosa, bastante devota da Virgem Maria. Aquela menina já parecia ser adulta. Este pensamento confortava um pouco o espírito da mulher. 
- Se eu tivesse condições – pensava – pedia ao Francisco que me desse a Olívia pra criar...
Mas, sabia que não teria condições de sustentar mais uma criança. Ela e o marido já tinham sete filhos. Dar roupas a todos era muito difícil, a comida nunca sobrava. O casal aguardava ansiosamente o crescimento dos cinco filhos homens para ajudar no trabalho da lavoura e poderem produzir mais alimentos. As duas meninas ainda não estavam em idade de casar.
-Rezarei muito à Santíssima Virgem. Nossa Senhora cuidará de Olívia e dos irmãos.

3 – VIDA, QUE ERA UM SOPRO

Agora, apenas coqueiros
    
         A morte de Rosa, na tarde daquele mesmo dia, foi recebida com serenidade pelas crianças e por Francisco. Sem sucesso na busca do médico, Francisco chegou a tempo de ver os últimos momentos da esposa com vida. Seus filhos providenciaram o funeral, que consistia em fazer um caixão de madeira leve e revesti-lo, por dentro com tecido liso e por fora com tecido estampado, ambos de cor roxa, usada, por costume, para funerais de adultos casados. As mulheres providenciaram as mortalhas, também de cor roxa. No dia seguinte, a família acompanhou serena a entrega de sua jovem matriarca à terra, entre cantos e orações que falavam da existência de um lugar muito melhor para se viver, junto com Deus, a Virgem Maria e os anjos. Os irmãos quase não conversaram entre si durante estes acontecimentos. Ocuparam-se em receber bem as pessoas que vinham prestar condolências. Sem nada combinarem, cada um e todos cuidavam de alguma coisa necessária ao momento. Tentaram, de todas as maneiras, poupar o pai, já tão cansado e sofrido. 
        A vida continuou e Francisco passava o dia em suas plantações de mandioca, milho, arroz e feijão. O homem negociava parcerias em terras mais próximas de casa e levava consigo os meninos. Ao chegar ao trabalho, media uma gleba de onze varas para cada filho e uma de vinte e duas varas para ele. Cada vara correspondia a vinte e dois palmos. Ele era sempre o primeiro a terminar a tarefa. Começava então a ajudar o filho que estivesse mais atrasado, até que terminassem todo o trabalho, solidariamente. Depois, enxadas nos ombros, rumavam para casa. Enquanto caminhavam, passavam por outras suas pequenas plantações para levar algo mais para Olívia acrescentar ao jantar. Antes, porém, passavam pelo ribeirão, onde a meninada tirava a roupa para cair na água para se refrescar, ou mesmo para pescar bagres, tubaranas e piabas, pequenos peixes comuns naquele manancial de frescor.

4 – A VIDA QUE É VIDA

Brisa que acaricia

 

         Para Olivia, sobrara a responsabilidade de cuidar da casa e fazer a comida para a família. Após a saída dos homens, ela ia de cama em cama arrumar todas elas, deixando tudo preparadinho para o descanso noturno. Os colchões eram de tecidos costurados em retângulos, com duas aberturas na parte que deveria ficar virada para cima. Eram cheios de palha de milho que deveria ser “remexida” diariamente, para dar lhe alguma maciez. A menina esticava os lençóis sobre a cama, dobrava as colchas de retalho ou algodão, varria os quartos de chão batido e limpava a poeira dos móveis da casa. Depois, ia para a cozinha, onde lavava os talheres, limpava o fogão e o chão. Por fim, saía a varrer e molhar os terreiros da sala e da cozinha, com vassouras improvisadas com ramos de alecrim, cujas folhas deixavam no ar um aroma deveras agradável. Sentava-se por alguns minutos na soleira da porta da cozinha. Muitas vezes, após breve descanso, caminhava pelo córrego até o ribeirão onde havia, num trecho mais largo e raso, uma árvore de Óleo que se desenvolvera na horizontal, quase rente à fina lâmina de água, até ao outro lado servindo de pinguela a quem quisesse atravessar.  A menina caminhava pelo grosso tronco da árvore até ao meio e ali se sentava. As pequenas pernas ficavam a balançar e os pés a tocarem a água límpida e fresca que corria sobre a areia e pequenas pedras. Grandes árvores de caule fino, cobertos de plantas parasitas, cresciam à beira do ribeirão, entrelaçadas por cipós diversos, deixando aquele lugar escuro e fresco, ante o sol que já subia ao céu. Neste santuário natural, a água corria emitindo um suave som, o vento ameno tocava as folhas das árvores e os cabelos da menina. A luz do sol, vez por outra, surgia quando ramos das árvores se abriam ao vento fraco e causava reflexo na água, como centelhas de luz. Tudo ali agradava Olívia e, para ela, aquele lugar era único. Ela via ali cardumes de piabas se deslocando de um lado a outro e, vez por outra, um Martim Pescador a descer de surpresa e subir com um peixe no bico. Ao longe, ouvia o canto das saracuras e do Ferreiro ou Araponga, junto ao piar de um Inhambu, o “grito” do Anu, o cantar do Bem-te-vi. Tudo isto fazia a menina se esquecer de tudo, inclusive do tempo. Tudo isto a fazia sentir-se como se Deus a tivesse acariciando e lhe dizendo quão grande era o seu amor por ela. Ela não estava só. Depois, voltava à cozinha para preparar o almoço para os homens. Ela colocava um pequeno banco junto ao fogão, já que não tinha estatura para alcançar as trempes e assim, improvisando, foi dando conta de ajudar a família. Terminada a feitura da refeição, abastecia os cinco pequeninos caldeirões de alumínio com feijão, arroz, verduras e, às vezes, um ovo frito, tampava-os prendendo as tampas com uma borrachinha esticada das “orelhas” do recipiente. Aí, ficava aguardando que um dos irmãos chegasse para apanhar a comida e levar aos demais onde estivessem trabalhando. Assim, os dias e os meses foram se passando e Olívia se acostumara a permitir que seu pensamento viajasse no tempo, ao passado. Ficava se lembrando da mãe. Como ela era boa! – pensava. Sua mãe a chamava de filhinha, ensinava-lhe os afazeres domésticos, prevenia-a quanto aos perigos do mundo. Dizia: filha, há muita gente ruim neste mundo! Valorize as pessoas de bem e fuja das pessoas falsas e aduladoras, prefira as pessoas que lhe falem a verdade, mesmo que você não goste desta verdade. Cumpra suas obrigações e nada deixe, que seja de sua responsabilidade, para que outros façam. Mas a mãe era dura nas suas palavras quando algum dos seus filhos cometia qualquer deslize. Não se importava muito em usar uma pequenina vara de marmelo para castigar a qualquer um, até mesmo Olívia, caso precisasse. Não tolerava mentiras. Quanta falta Olívia sentia de sua mãe! Foi, aos poucos, descobrindo que sua mãe representava para ela mais do que imaginara. Sentia uma saudade que crescia cada vez mais. Sentia o coração apertar ao se lembrar de como sua mãe a ensinara a fazer as coisas. Um desejo enorme de tornar a ver a mãe foi crescendo em seu coração infantil e ela ficava imaginando como isto poderia acontecer. Ao mesmo tempo, tinha muito medo do mundo dos mortos. A menina, então, pensou numa estratégia: iria, de vez em quando para a estrada estreita que passava perto da sua casa e ficaria olhando para a janela do quarto de sua mãe. Quem sabe ela não apareceria ali! Isto a acalentou por muito tempo.

         Já fazia quase quatro anos que Rosa se fora e os meninos estavam crescidos. A caçula, Olívia já bem cuidava da casa e José, o mais velho, já completara vinte anos e falava em se casar. A família se mantinha plantando em parceria ou, no tempo oportuno, se empregando na panha de café. Os cafezais que ofereciam trabalho ficavam distantes trinta ou quarenta quilômetros dali. Portanto, os rapazes ficavam longe de casa por todo o tempo de serviço, ficando Francisco cuidando de suas lavouras, junto com Olívia. Para a menina, eram tempos muito difíceis a ficar sem a companhia dos irmãos. Sonhava com eles muitas vezes e rezava para que chegasse logo o dia da volta. Colhida a safra de café, todos voltavam porque era hora de pensar em novas lavouras.

5 –VIDA DURA QUE NÃO DURA

Um anjo leva um anjo

 

- O senhor Galego me propôs tocar o engenho dele, por uns tempos, e estou inclinado a aceitar – disse Francisco aos filhos, certa tarde.
- O senhor que sabe, pai, mas é um serviço um pouco perigoso, há que se ter cuidado – recomenda Gabriel.
- É! O trabalho de enfiar cana naqueles moedores requer atenção. E a fervura dos tachos? De vez em quando alguém aparece queimado! – opina José.
- Todo trabalho é difícil, meus filhos. E todo trabalho requer zelo, cuidado e atenção, ressalta Francisco.
- A cana daqui é de boa qualidade e certamente o senhor ficará feliz com a qualidade dos produtos que sairão do engenho – conclui Frâncio.
Na semana seguinte, Francisco estava no engenho onde se trabalhava a cana para a obtenção de rapadura que o patrão comercializava em todo o estado de Minas Gerais. A rapadura era produto muito procurado naquela região. Ela era usada para substituir o açúcar, pela facilidade de transportar, pois era fabricada em forma de grandes tabletes que mais pareciam tijolos. De consistência dura, era preferida por não melar nas viagens, podendo ser acomodadas em vários tipos de recipientes, que eram levados, muitas vezes, em lombo de burro, não sofrendo danos em caso de mudanças climáticas. Francisco estava animado com o novo trabalho. As lavouras ficavam por conta dos três meninos mais velhos. Olivia, agora com doze anos, cuida muito bem das tarefas de casa. Frâncio, o mais novo, agora com quinze anos, ajudava o pai no engenho. Era um trabalho mais saudável, pois tomava-se menos sol e chuva, uma vez que a pequena indústria era toda coberta. Porém, era necessário habilidade e cuidado. Um funcionário tinha que, por todo o dia, executar a incumbência de introduzir a cana nos moedores ou moendas. Isto era feito com as mãos e, não raro, acontecia de alguém ser mutilado naquele trabalho. Em outra parte do engenho, um ou mais funcionários cuidavam de grandes tanques, onde decantava e fermentava-se o melaço. Noutro setor, onde o solo era bem mais baixo, devia estar alguém a cuidar de tachos com o melado fervente e, ali também havia riscos de queimaduras. O jovem Frâncio era hábil e cuidadoso, disciplinado, além de obediente. Por isto, o pai o deixava a vontade para escolher onde queria trabalhar. Muitas vezes, o garoto preferia o trabalho de queima da cana, que acontecia logo após a entrega pelo produtor e tinha que ser feito em área externa. Os caules de cana eram esmagados e triturados, soltando um caldo ou garapa que era fervida até virar o melado, fase anterior à secagem e moldagem da rapadura. O caldo era antes separado das impurezas num processo de decantação. Neste ponto, o grau de fermentação determinava a aparência do produto final, por isto, Francisco desceu as escadas que o levariam ao complexo de grandes tachos de cobre, nos quais se ferveria o caldo, passando antes pelos pequenos tanques onde o caldo era decantado, olhando uma a um.  Daí iria para a fervura em tachos. Logo após ter chegado e limpado todos os recipientes, o homem abre algumas torneiras e logo começa a escorrer para dentro dos tachos o verde caldo da cana. O fogo, aceso a tempo, aqueceu os tachos e logo o caldo líquido, fervente, vai se transformando em melado. Francisco ia manejando a engenhoca que fazia com que os tachos cheios de melado quente, no momento certo, fossem se derramando num pequeno condutor que levava às formas. Depois, raspava o tacho juntando tudo. Daí o nome rapadura que vem da raspa dura que ficava grudada aos tachos. O processo ia se repetindo por todo o dia. Apesar de esta fase da fabricação do produto acontecer em ambiente sem paredes, o calor, às vezes, maltratava o operador e o homem já aguardava com certa ansiedade a moagem dos últimos molhos de cana para encerrar o expediente, já que a tarde se aproximava. Francisco pensava no filho que, naquele dia, acima das escadas, tratava de abastecer as moendas com cana preparada. Em muitos momentos, se questionava se devia deixar o filho com essa responsabilidade. Lembrou-se dos casos de acidentes acontecidos naquele mesmo local. Procurava, entretanto, tranquilizar-se pois, Frâncio já tinha quinze anos e corpo e cabeça de homem. E havia meses que fazia aquele serviço. Pensou na quantidade de caldo de cana que ele viu descer para aqueles tanques. O volume de cana moída era muito grande, pois Frâncio era muito eficiente. Naquele dia, porém, Francisco estava inquieto. Alguma coisa o incomodava e ele pensava no garoto. Preciso subir lá pra ver se está tudo bem – pensava, olhando para as bicas de caldo, para certificar-se de que o garoto estava ativo. Mas o trabalho não permitia e ele, contrariado, foi protelando, tentando se tranquilizar. E assim o dia foi se passando. Fora das instalações, num dos poucos momentos de pausa, Francisco observava, ao longe, o gado deitado sob as árvores, buscando se proteger do sol de agosto. Reparou que o mato estava crescendo nas imediações do engenho e planejou limpar tudo no dia seguinte. Por alguns minutos, esqueceu-se do filho. Retirou do bolso um pedaço de fumo baio, torceu, para que ficassem firmes as três tiras de folhas que compunham o pequeno rolo. Tirou do bolso um pequeno canivete e pôs-se a picar o fumo, deixando caírem as partículas na mão esquerda. Retirou do bolso uma palha de milho, já aparada nas extremidades e nela colocou o fumo picado. Em seguida, enrolou, apertando bem, desde a primeira volta. Ele tinha o hábito de três a quatro vezes ao dia, acender um cigarro de palha e soltar algumas baforadas. Francisco tirou do bolso menor da calça uma pequena binga. Percebeu que o algodão estava seco. Levantou-se e foi até a pequena despensa, pegou combustível, umedeceu o algodão e recolocou no compartimento próprio. Daí, atritou o pequenino rolo da binga com a pequena pedra, gerando uma faísca que fez surgir uma chama. Francisco ascendeu o cigarro palheiro e ficou ali por um tempo, enquanto os tachos ferventes dispensavam atenção. Ao retornar ao trabalho, vê que o caldo estava produzindo melado com ótima qualidade e, certamente, o produto final seria bem aceito pelos apreciadores de rapadura. Já se preparava para começar a limpar os tachos quando pareceu ouvir, no meio do barulho das máquinas, um grito, vindo lá das moendas. O homem gela. –Frâncioooo! – grita desesperado. Sobe as escadas correndo. A distância, entre o setor de fervura e o setor de moendas, pareciam léguas. Vai gritando: Deus, não! Deus não! Deus, não! Ao chegar, depara com o horror. Vê o filho sendo esmagado pela moenda. Percebe o infeliz Francisco que seu filho, como sempre fazia, estava usando camisa de mangas compridas, de tecido duro de algodão. O jovem – parece -esquecera de abotoar ou arregaçar os punhos da camisa que foi puxado pela moenda, levando também o seu braço e o seu corpo. Metade já tinha passado. Francisco desesperado conseguiu parar a máquina. Mas não sabia se voltava a polia, trazendo o corpo do filho com metade esmagada ou se acabava de passar. Liquidado, correu à estrada a pedir ajuda:
- Socorro, Silvano, o engenho esmagou meu filho! Ele está morto! Grita para o homem que se aproximava.
O homem se assusta, fica imóvel. Depois anda de um lado para o outro, leva as mãos à cabeça e por fim gagueja:
- Eu não tenho coragem de ver isto não. Me perdoa! 
E saiu em disparada pela estrada de terra. Logo, outro homem se aproxima.
- Me ajude aqui, Juca, meu filho passou na moenda. Está morto. Me ajuda a retirá-lo de lá, por caridade!
O homem arregala os olhos, muda de cor e consegue gaguejar:
- Seu Chico, vou chamar alguém para ajudar o senhor. 
E saiu a passos lagos, atordoado pela estrada. Por fim, Francisco vê aproximar o negro Malaquias. 
- Malaquias, por caridade, me ajude. Meu filho está morto pela moenda! Já desesperado, o coração de pai não conseguia se controlar mais e berra:
- Passaram aqui dois brancos e não prestaram. Você é negro, talvez você preste.
Os dois homens desceram as escadas até as moendas. Malaquias levou as mãos no rosto ante a cena com a qual se deparara. Num esforço sobre-humano, conseguiram fazer voltarem as polias e libertaram o corpo do jovem Frâncio que, aos quinze anos, teve tragicamente interrompida sua vida num engenho de cana de açúcar. A pobre família Rodrigues perdera Rosa, a esposa de Francisco e mãe das cinco crianças, havia pouco mais de quatro anos e agora perdia o jovem Frâncio, de 15 anos. 
Sobre um galho de ipê roxo, ainda com alguma flor, ouvia se barulho de um pássaro preto: tiô-fi, tiô-fan! tiô-fi, tiô-fan! tiô-fi, tiô-fan! Nos beirais do engenho a garrincha cantava. Ouvia-se uma algazarra de pássaros sobre os coqueiros da estrada. Eram os melros, heroicamente, tentando defender os seus filhotes dos gaviões ávidos por carne de ave tenra e fresca. Avoantes baixavam atrás das frutas abundantes por ali. O gaturamo, imitador dos demais pássaros, cantava belamente. Outros passarinhos faziam barulho, atraídos por frutinhas da corindiba rente às paredes do engenho. De outros pontos, ouviam-se muitos pios de pássaros que não cantavam.

6 – VIDA QUE É ESPERANÇA

Paz que escapa pelos dedos

 

         Pouco passava das oito horas da manhã e Olívia acabara de arrumar a casa quando ouviu, com alegria, vozes femininas conhecidas a se aproximarem. Lídia e Júlia, moças, de sua idade, chegavam para ajudá-la em sua tarefa daquele dia. As três meninas, aos dezesseis anos, tinham, uma vez na semana, a função de peneirar, secar e torrar toda a massa de mandioca, preparada no dia anterior, para virar farinha. Elas haviam se aproximado mais, após a perda de Frâncio. Olívia, muito apegada ao irmão e confidente, houvera se entristecido muito. A família toda sentiu abalar suas estruturas com duas tragédias em pouco tempo. Os quatro anos que se passaram, não tinham sido ainda suficientes para uma recuperação. Francisco perdera muito o gosto pela vida. Não era homem de bebida alcoólica ou de praticar qualquer excesso na vida, mas não conseguia se desvencilhar da tristeza. Pouco conversava, apenas trabalhava. Os irmãos, casados, viviam longe. Olívia vivia, agora, só com o pai. Ela gostava da companhia das duas moças, que também eram parentes. Lídia era expansiva, comunicativa, espalhafatosa. Seu bom humor tornava melhor qualquer ambiente. Ria muito e fazia rir muito. Júlia era mais contida, contudo, quando estava com as duas amigas, costumava se soltar e conversar muito. Lídia vivia inventando namorados para as duas amigas, querendo ver até que ponto conseguiria constrangê-las, mas nem sempre obtinha sucesso. Após conversarem um pouco, as garotas iniciaram o trabalho. Lídia ia retirando a massa da prensa e colocando sobre o pequeno estaleiro armado com madeira e bambu, Olívia ia desmanchando os torrões, esfarelando a massa, enquanto Júlia peneirava tudo, fazendo surgir uma fina massa branca. A prensa consistia em uma superfície de pedra ou madeira, por sobre a qual se colocava a massa, envolvida em tecido grosso. Por cima de tudo eram colocadas pedras. Durante a noite, sob o peso, a massa ia perdendo água, resultando em uma pasta ainda um pouco úmida. O sol, em pouco tempo, terminaria o trabalho de secagem.  De vez em quando, uma pequena parada, pois os braços, cansados do movimento repetitivo, começavam a doer, obrigando a um pequeno descanso. Ao finalizar a sua parte na tarefa, Lídia, a primeira na linha de trabalho, verifica a boa qualidade da massa fina, resultado do trabalho das companheiras e que seria, logo depois, transformada em farinha. Com as mãos doloridas pelo manusear da massa, dirige-se ao pequeno forno, construído na varandinha da cozinha, formado por uma chapa de ferro, com uma aba levantada para proteger o conteúdo, assentado sobre pequeno círculo feito de pedras, tendo uma abertura para inserir a lenha para queimar.  A jovem coloca, embaixo da lenha, gravetos e palha de milho e risca um fósforo. A chama amarela vai crescendo, domina os gravetos e começa a dominar a lenha. Logo, o forno estará quente e apto a receber a massa. Pouco tempo depois, as primeiras remessas de massa são colocadas sobre a chapa quente e, com uma pequena pá de madeira, Lídia vai revolvendo a massa, para que a torração fique uniforme. Enquanto trabalham, as meninas conversam. Júlia para Olívia:
- Ah, Olívia, sabe, dona Catalina?
- Sim, pobre mulher! Ficou viúva jovem e sem filhos.
- Você a conhece bem? Gosta dela?
- Não conheço bem. Por quê?
- Nada diga a seu pai, mas dizem que as pessoas andam querendo aproximar os dois.
- Para quê? Reage indignada.
- Ora, Olívia ...ela é viúva, seu pai também...
- E daí?
O humor de Olívia se altera radicalmente. Não aceitaria, de forma alguma, outra mulher na sua casa. Tinha ciúmes do pai, pois perdera a mãe e o irmão, pessoas que ela mais amava. Os outros irmãos moravam longe. Não queria perder o pai. Explode em Olívia uma mistura forte de sentimentos diversos. Desde o ciúme, a raiva, a sensação de rejeição, de ser preterida, de perda. Parecia que tudo era tirado dela.
- Daí que podem querer se casar novamente.
- Aquela lagartixa não porá o pé aqui.
Referia-se a Catalina, pejorativamente, pela cor da pele, muito branca e os olhos muito verdes. Esta senhora perdera o marido muito jovem, havia se passado alguns anos e pessoas próximas torciam por um acerto entre ela e Francisco.
- Mas é melhor você ir se acostumando com esta ideia. Seu pai ainda é jovem, você logo vai se casar e sair de casa. É justo querer que ele viva sozinho?
Olivia nada respondeu. Seu rosto revelava infelicidade e indignação. 
Peneirada toda a massa de fécula, as duas moças se encaminham para o local de torrefação e começaram a embalar em sacos de pano a farinha torrada. Os sacos eram costurados com linha, arrastados para cima de um tablado e cobertos com uma lona. Seriam levados para a cidade, de onde tinham sido encomendados. 
O dia passou rápido, pois, além de as três meninas gostarem da companhia umas das outras, o trabalho tinha que ser concluído no mesmo dia, senão deteriorava-se a massa da fécula, o que fazia serem as tarefas muito corridas. Contudo, a menina sentia queimar o peito e um aperto no coração. Tudo por causa da informação dada por Júlia. Assim que as amigas se foram, não conseguindo deixar de pensar naquilo, assenta-se em sua cama, pondo-se a refletir. As emoções vão aumentando, o coração, inconformado, disparava. Não conseguia se conformar e começou a soluçar. Quando deu por si estava caída na cama a chorar compulsivamente. Fora tomada por um turbilhão de emoções e sentimentos, desde a rejeição, até o ciúme, passando pela sensação de impotência e resignação. Em sua mente vai voltando tudo o que sentira aos oito anos, quando vira partir a mãe. Lembrou de quanto tempo passava a chorar por ela. Que falta sentia da mãe! Pensava no quanto fora difícil se acostumar com a sua perda. Na verdade, não se acostumara ainda, mesmo após nove anos terem se passado. Tinha inveja de Júlia e Lídia que tinham pai e mãe. Buscava amor materno nas mães das amigas, mas, apesar do carinho com que era tratada, só conseguia se sentir desamparada. Quem sabe se tivesse uma irmã, seria mais feliz! Sente-se o mais infeliz dos seres humanos. Sentia que estava sendo abandonada pelo pai. Não aceitava que no coração do seu pai coubesse alguma mulher além dela e da mãe. Pensou em Frâncio, o irmão com quem ela mais identificava. Ele era seu amigo e confidente.  Chorou todas as lágrimas que seu organismo podia produzir. Agora não chorava mais, apenas sentia que estava se afundando em algo que ela não sabia definir o que era. Só sabia que estava muito triste. Precisava falar com alguém, mas não queria se abrir para suas duas amigas. Elas já tinham percebido o quanto ela ficara irritada. Talvez tivesse sido grossa com as moças, logo as únicas amigas de verdade que tinha. Pensou na única cunhada que morava por perto. Desistiu. Cunhada não é parente e pode não ser amiga também – pensou. Não posso contar com ninguém. Contudo, lembrou-se do velho Alípio.

7 – VIDA INSEGURA

O susto

 

         Anoiteceu e Olívia estava só, em casa. Apesar de muito cansada, o dia teria sido maravilhoso, não fosse a informação dada por Júlia. A jovem começava a ter raiva de si mesma por nada ter percebido. Lembrou-se de várias conversas de pessoas com seu pai a respeito de ele se casar de novo. Lembrou-se também de que, algum tempo após dona Catalina ter se enviuvado, o pai recebera em casa algumas mulheres que aí vieram, levando junto a viúva, a pretexto de falar sobre trabalho. Agora está tudo claro – pensou.
Já se preparava para dormir quando ouviu o ranger do pequeno portão de paus de aroeira da frente sua casa. Quem seria? Estranhou, pois era costume, qualquer pessoa que chegasse, chamar ou bater palmas antes de adentrar o terreno, principalmente à noite. Aguçou os sentidos, principalmente a audição. Lembrou-se das recomendações de seu pai, sempre que a deixava sozinha: “Filha, se você ouvir algum barulho estranho, pegue a espingarda carabina, atire e não queira saber quem é”. Recomendava isto porque o vizinho mais próximo ficava a mais de duzentos metros dali. Num caso de pânico, gritar, de nada valeria. A arma era também usada para espantar onças e lobos que costumavam atacar galinhas e bezerros recém nascidos. Ouviu passos a aproximarem-se da casa. Sabia que não era seu pai, pois estava longe de casa e só voltaria bem mais tarde. Alguém estava do lado de fora de sua casa, bem perto dela, e não era nenhum amigo. O medo toma conta da garota, as pernas tremem. Tem a impressão de que corre suor frio pelo seu corpo. Começou a rezar para que seu pai não tivesse levado consigo a carabina. Sabia que ele costumava levar a garrucha quando ia para mais longe do povoado. Contudo, algumas vezes ele levava a carabina, pensando em abater algum paturi ou nhambu e, para isto, esta era uma arma mais adequada. A jovem apaga a lamparina e, pé ante pé, temendo tocar em algo e fazer qualquer barulho, que viesse a informar ao intruso que ela estava dentro da casa, consegue chegar ao quarto do pai. Caminhou no escuro até ao armário do quarto, levou a mão com a leveza possível por cima do móvel até sentir a coronha da arma. Tomara que esteja carregada - pensou. Já ia contrair os dedos quando parou de repente. E se a arma estiver carregada e destravada? Pode disparar. Olivia deslizou suavemente os dedos pela arma, por cima da coronha, na direção dos canos e certificou-se de que a mesma estava travada. Então, com a mão direita, retirou a arma segurando-a pela coronha trazendo a até a altura do peito. Levou a mão esquerda por baixo da arma, adiante do guarda-mato, ficando a arma de dois canos inclinada, apontando para cima. Constatou que a arma estava carregada, um cuidado que seu pai tinha, quando deixava a filha só, em casa. Ele sabia que ela conseguia atirar bem, pois costumava matar cobras, atirando na cabeça do animal à distância de cinco a dez metros. Tentando manter a calma, puxou a trava. Parou e ficou a ouvir de onde vinha o barulho. Os passos circundavam a casa. Ela ouviu o chiar da porta do paiol ao ser aberta. Lá havia duas tuias de madeira abarrotadas de milho e feijão, poupança do ano. Também havia ferramentas de roça, material para cavalgada e um pequeno torno. Nas redondezas do povoado, eram comuns pequenos roubos de grãos em paióis, de galinhas e até de leitões. Estes roubos aconteciam quando o ladrão percebia que o morador da casa estava fora, principalmente à noite. Olívia pensou que, talvez, aquela pessoa, ao ver Lídia e Júlia saírem dali, à noitinha, julgou não ter ninguém mais na casa. 
- Se ao menos estivesse de lua cheia para que eu pudesse ver quem é este salafrário! -pensou, quase em voz alta!
Se fosse alguém conhecido, bastava ela gritar que a pessoa se escafederia. Mas e se fosse um estranho? Se fosse alguém capaz de fazer mal maior? A menina ouve o arrastar da porta do paiol que se fecha. O intruso saíra do paiol. Faz-se silêncio por alguns minutos. Grilos começam uma pequena sinfonia. Olivia ouve, ao longe, o barulho da água do regato, que passa no terreiro da cozinha, a cair no lago. Tudo isto, a deixa ansiosa, pois precisa de silêncio para saber se os passos continuam ao redor da casa. Entretanto, consegue ouvir a sua própria respiração. Senta-se na cama e espera. Ouve novamente os passos. A pessoa caminha na direção da casa. Olívia segura a arma com firmeza. De repente ela vê a ponta de uma faca sendo enfiada entre a janela e o marco, tentando rodar a taramela. Ela dá dois passos adiante, aponta o cano para a janela e arma o gatilho.
- Se ele abre eu arrebento a cabeça dele – pensou – com os dentes cerrados!
O invasor insiste em tentar rodar a taramela da janela. Ele empurra e puxa a faca, levanta e bate. A taramela, endurecida, não roda e salva a situação. O invasor desiste daquela janela e se dirige ao quarto da moça. Olívia anda com cuidado até o seu quarto e se posiciona para disparar, caso o invasor consiga abrir. Logo a ponta da grande faca aparece e tenta mover a taramela. Novamente o intruso levanta a faca e bate na taramela. Outra vez não consegue abrir. O invasor tenta agora a porta da frente da casa e a cena se repete em todas as janelas e portas da casa. A via crucis da jovem dura mais de vinte minutos. Por fim, o invasor desiste. Ao ouvir o ranger do portão, sinal de que o maldito ladrão ia embora, Olívia senta-se exausta na sua cama, o coração em disparada. Começa a rezar para que seu pai chegue logo.
- Será castigo de Deus por eu não querer que meu pai tenha outra mulher para lhe fazer companhia? – pensou.
Apesar do aperto que passou, Olívia acabou tirando proveito do ocorrido. Começou a pensar que, quando ela se casasse e saísse de casa, nunca ficaria tranquila, sabendo estar o pai morando sozinho. Talvez fosse mesmo melhor que ele se casasse de novo. Isto fez com que diminuísse a raiva que estava sentindo de seu pai, após a revelação de Júlia, por ele nada ter dito a ela sobre o assunto. Todavia, conformada, ela não estava. O grande problema era que ela não simpatizava com Catalina. Não queria aquela mulher por perto. Todavia, pouco mais de seis meses após aquela noite em que fora visitada por um ladrão, aquela casa era habitada por mais uma mulher. Catalina, calma e frágil, tentava ser boa esposa e madastra.

8 – VIDA PRECISA DE VIDA

Anjos e anjos por aí

 

         Percebi o clic-cloc-clic-cloc do relógio despertador sobre a pequena cômoda. Passavam das vinte e duas horas. Eu me empolgara escrevendo a trágica história da familia Rodrigues. Teresa, quase como eu, muito sentiu todos esses acontecimentos. Foram dois fortes golpes. Homem forte, Francismo conseguiu levar adiante a vida, constituir outra família. Seus fortes braços só descansaram quando seu coração parou. Os filhos homens de Rosa casaram-se e foram morar, cada um no lugar que mais lhes foram conveniente. Francisco, casado com Catalina, enfrentava problemas de relacionamento entre a filha e a esposa. Os filhos vinham chegando. Primeiro João, depois Helcia, depois Antero e, por fim, Guilhemina. Ameacei me levantar da cadeira. O movimento meio brusco chamou a atenção do meu amigo que levantou a cabeca e me olhou, como a me dizer: por hoje está bom. Dirigi-me ao meu quarto, deitei-me em minha velha cama. Ainda nao me acostumara com a ausência de Teresa. Repassei, na mente, o que houvera escrito naquela noite. Verdade que eu me sensibilizava com a história que acabara de narrar. Entretanto, eram tantas as misérias, carências e infortúnios daquele povo, dos quais fui testemunha! O sono não vinha e eu fui buscando na memória outros fatos e pessoas. Lembrei-me das conversas que eu tinha com o Alípio. Ele sempre me intrigou. Era dono de uma grande sabedoria, proveniente de sua inegável clarividência. Contudo, parecia-me passivo e quieto. Sua mulher, Olga, ativa e falante, parecia-me mais feliz. Naquela época, eu, jovem, costumava andar nas tardes a visitar a comunidade, buscando receber pagamento de mercadorias que eu vendia. Aquilo sempre me deu muito prazer, pois, além de serem todos bons pagadores, corria sempre uma boa conversa, enquanto sentávamos em bancos ou mesmo no chão nas sombras das árvores que existiam defronte quase toda casa. A Vila Coqueiro se transformara, nestes tempos, em vários conjuntos de casas, as quais eram feitas beirando a estrada. A via, toda cascalhada, cortava o cerrado e ligava a região oeste a importantes rodovias que levavam à capital minerira, ao sul de Minas Gerais, Triângulo Mineiro e Goiás. Dela saia outra estrada que rumava ao norte mineiro, por isto a vila tinha a forma de cruz. Eu morava no “pé” da cruz. Andava pela direita da rua, ía até o braço da cruz, percorria-o, depois ia para a esquerda e voltava pelo outro lado da rua comprida. Era neste retorno que eu passava na casa do Alípio.

Povoado de Coqueiros, município de Divinópolis (MG), 1944

 

         O velho, meio calvo, só é visto sem camisa, mostrando a pele enrugada acima da cintura. É que a pele arde, queima, resultado de um cobreiro que o acertou, indo do umbigo até o meio das costas, fazendo uma meia cinta. O cobreiro é assim: vem com dores e espasmos. Depois aparecem bolhas. Uma vez secas as bolhas - o que ocorre em algumas semanas - a doença está curada. Contudo, em algumas pessoas, depois, fica a sequela, ou seja, a pele fica tão sensível a ponto de a pessoa não se suportar, sobre ela, tecido, vento, nem mesmo assopro.  As noites de frio eram um problema para ele, pois não podia se cobrir. Tinha que dormir perto do fogão da cozinha. E, de tempo em tempo, acordado pelo frio, tinha que reavivar a brasa. Juntava-se a isto a tosse insistente por causa da constante infecção do aparelho respiratório. As vistas já fracas por causa de uma incipiente catarata, o impediam de ver a camada de poeira que cobria seus rústicos moveis. Não estava conseguindo mais trabalhar, pois, as juntas doíam muito. Antes de qualquer refeição, o velho pedia a Deus a benção sobre o alimento. Fazia isto não só por gratidão a Deus, mas também para que a comida não fizesse mal, pois o sistema digestivo era rebelde, causando-lhe males como o estufamento e dores abdominais. Nos ouvidos, um zumbido constante, como miríade de grilos a atordoá-lo, além de tonturas, que o vizinho chamava de labirintite.

- Por que o senhor tem tanta macacoa, Seu Alípio? Vive aperrengado! – interpela-o Alzira, a baixinha e rechonchuda vizinha de poucos metros.
- Hum! 
Era o que respondia, cansara de dar explicações. Apenas não se cansava de falar sobre qualquer assunto era com a moça Olívia, educada, paciente e que parecia gostar dele. 
- Às vezes, Olívia, penso que muitos problemas de saúde que tenho e que incomoda a chata da dona Alzira, é por não conseguir me comunicar com Olga. Eu tento ter paciência com ela, mas ela nunca tem comigo. Ela não gosta de conversar comigo, sabe?
- Seu Alípio, não será isto reflexo das doenças da alma? Não falta ânimo e esperança em seu coração? Se é isto, nenhum médico poderá curá-lo, por melhor que este seja. O senhor é um homem tão querido. Parece-me até que são pessoas assim que são mais acometidas de doenças da alma!
Alípio gostava da sinceridade da moça. Ele sabia que ela estava certa no que falava. Parecia verdade que a dor da mente, as lutas do espírito atormentado, muitas vezes vão se refletir nas articulações, em todo o corpo. A Tensão no pensamento e na carne provocam o reumatismo e a queda da imunidade do corpo.
- Mas são tantas as preocupações no mundo de hoje, Olívia!
- Verdade, mas, se sua mente descansar em paz, o seu corpo fará o mesmo.
- Mas quem pode ter paz neste mundo?
- Talvez se aceitarmos o que não podemos mudar, tenhamos mais ânimo!
- Mas quem sabe se não podemos mudar?
- Pode ser que não saibamos, mas podemos rezar para que Deus abençoe os seus esforços.
- E deixar o resto por conta dele.
A moça se surpreende consigo mesma. Saíra de casa para tomar conselhos com o velho Alípio e, neste instante, estava aconselhando a ele. Ela sabia que, só o fato de ser ouvida por alguém que gostasse dela, a tornaria mais calma. E isto acontecia sempre quando falava com o velho, que ela considerava como um avô. Assim, falando sobre suas desventuras, muitas eram as tardes em que a jovem ia até a casa do idoso. Com ele falava da falta que lhe faziam a mãe Rosa e o irmão Frâncio. Naquele dia, ela chegara, como sempre, muito agitada e nervosa. Precisava falar com alguém sobre a madrasta. Alípio sabia o quanto o coração daquela jovem sofria por causa dos ciúmes que sentia do seu pai. Era compreensível – pensava – pois seu amigo Francisco amava os filhos e sempre fora um pai cuidadoso com eles. A caçula, única mulher, sempre merecera atenção especial de todos. Alípio achava natural que a garota tivesse dificuldades em aceitar outra mulher no lugar de sua mãe. Além disto, ela sofria ainda a perda do irmão. Por isto, Alípio tinha muita paciência com ela e a recebia sempre como a uma neta muito querida. A conversa foi interrompida pelo som de uma zabumba. Era o Chico Alfaiate batendo em seu instrumento. Nunca ninguém soube explicar a razão da alcunha “Alfaiate”, uma vez que a única coisa que sabia fazer era bater na sua zabumba. Baixinho, usava um chapéu grande de palha e uma barba comprida e branca. Morava só. Andava pelos povoados fazendo ecoar o som do instrumento e pedindo esmolas, que ele levava e entregava ao padre em alguma paróquia da região. Raramente ouvia-se a sua voz. Além das moedas, nada mais pedia a ninguém. Algumas pessoas diziam que ele fazia aquilo para pagar uma promessa, mas ninguém sabia a razão de tal compromisso com Deus. Os vicentinos levavam e ele uma cesta básica semanalmente. Um pouco de arroz, feijão, sal e açúcar.  
- Seu Chico parece um anjo a pedir esmolas para ajudar os outros!
- Sim, Olívia, é uma alma pura!
Logo, o som da zabumba foi ficando mais fraco, enquanto Chico Alfaiate virava a esquina ao longe. O sol se encaminhava para o poente. Muitas nuvens de seca o circulavam, tentando, sem êxito, encobrir o seu esplendor. Ao som da zabumba que se distanciava, juntava-se o canto de muitos pássaros. Por que aquela sinfonia naquele horário? Seria porque era a hora do Ângelus? Seria porque toda a criação queria manifestar-se jubilosa ao Criador? Certo é que a natureza estava celebrando as maravilhas do Criador diante dos olhos que pudessem ver. O entardecer é hora dos pássaros darem glória ao seu Criador. É como se o tempo parasse para reflexão. Finda-se o dia e a noite vem. É hora do descanso para que amanhã tudo possa recomeçar e renovar. Um novo dia virá e uma nova noite nos recordará a nossa condição de ser criado, para que prostremos diante da bondade, beleza e grandeza do criador.

 

O relógio está marcando dezoito horas e quinze minutos. No rádio, encerra-se a Oração do Angelus. Acabo de ter uma franca conversa como o Chatinho e fazer um acordo com ele. Para minha surpresa ele concordou com tudo e ficou muito feliz. Eu disse a ele que precisava parar de escrever minhas lembrancas, pelo menos por algum tempo. Relembrar tudo isto fez aflorar em mim fortes emoções. Preocupava-me outra coisa: pensava eu que meu amigo sentiria ciúmes se eu lhe contasse o quanto eu amava minha irmã. Nunca disse isto a ela. Quando nossa mãe morreu, eu sofri por minha irmã. Quando Frâncio encontrou a morte no trabalho, eu sofri muito por minha irmã. Quando dona Catalina chegou à casa de meu pai, eu entendi o sofrimento de minha irmã. Chorei escondido de todos, principalmente dela. Eu não queria vê-la chorar. Hoje todos os que eu amava estão no colo do Pai. O tempo vai nos ensinando muito sobre a vida e o mundo. Na verdade, escrevi isto para prestar uma homenagem a minha querida irmã Olívia. Tenho certeza que ainda é tempo.

 

José Afonso Rodrigues.

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